Livro On- As vantagens de ser invisível – Parte 1

 
25 de agosto de 1991
 
Querido amigo,
Estou escrevendo porque ela disse que você me ouviria e entenderia, e não tentou dormir com aquela pessoa naquela festa, embora pudesse ter feito isso. Por favor, não tente descobrir quem ela é, porque você poderá descobrir quem eu sou, e eu não gostaria que fizesse isso. Chamarei as pessoas por nomes diferentes ou darei um nome qualquer porque não quero que descubram quem sou eu. Não estou mandando um endereço para resposta pela mesma razão. E não há nada de ruim nisso. É sério.
Só preciso saber que existe alguém que ouve e entende, e não tenta dormir com as pessoas, mesmo que tenha oportunidade. Preciso saber que essas pessoas existem.
Acho que, de todas as pessoas, você entenderá, porque acho que você, entre todos os outros, está vivo e aprecia o que isso significa. Pelo menos eu espero que seja assim, porque os outros procuram por você em busca de força e amizade, e é tudo muito simples. Pelo menos foi o que eu soube.
Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim.
Tento pensar na minha família como um motivo para que eu seja desta forma, principalmente depois que meu amigo Michael não foi à escola em um dia na primavera passada e ouvimos a voz do Sr. Vaughn nos alto-falantes:
“Meninos e meninas, lamento informar que um de nossos alunos faleceu. Faremos uma cerimônia em memória de Michael Dobson durante a assembleia desta sexta-feira.”
Não sei como as notícias andam pela escola e por que em geral estão certas. Talvez tenha sido no refeitório. É difícil lembrar. Mas Dave, o dos óculos esquisitos, nos disse que Michael se matou. Sua mãe jogava bridge com uma das vizinhas e ouviu o tiro.
Não me lembro bem do que aconteceu depois disso, exceto que meu irmão chegou à sala do Sr. Vaughn na minha escola e me disse para parar de chorar. Depois, colocou o braço no meu ombro e me disse para tentar ser forte antes que papai chegasse. Nós fomos comer batatas fritas no McDonald’s e ele me ensinou a jogar pinball. Chegou até a brincar que, por minha causa, ele tinha perdido uma tarde na escola e me perguntou se eu queria ajudá-lo a trabalhar em seu Camaro. Acho que fiquei muito confuso, porque ele nunca havia me levado para trabalhar em seu carro.
Nas sessões com o orientador educacional, pediram aos poucos de nós que realmente gostavam de Michael que dissessem algumas palavras. Acho que eles tinham medo de que alguns de nós tentassem se matar ou coisa parecida, porque pareciam muito tensos e um deles não parava de mexer na barba.
Bridget, que é louca, disse que às vezes, na hora dos comerciais da tevê, pensava em suicídio. Ela foi sincera e isso confundiu o orientador. Cari, que é legal com todo mundo, disse que se sentia muito triste, mas não se mataria porque é pecado.
O orientador dirigiu-se a todo o grupo e finalmente chegou a mim.
― O que você acha, Charlie?
O que havia de tão estranho nisso foi o fato de que eu nunca tinha visto este homem, porque ele era um “especialista” e sabia meu nome mesmo que eu não estivesse usando um crachá, como fazem nos eventos abertos ao público.
― Bom, acho que Michael era um cara legal e não entendi por que ele fez aquilo. Apesar de me sentir muito triste, acho que o que realmente me aborrece é não entender o que aconteceu.
Acabo de reler isso e não se parece com o modo como eu falo. Especialmente naquela sala, porque eu ainda estava chorando. Não parei de chorar nem por um minuto.
O orientador disse que suspeitava que Michael tinha “problemas em casa” e achava que ele não tinha com quem conversar. Talvez ele se sentisse sozinho e por isso se matou.
Então comecei a gritar para o orientador que Michael podia ter conversado comigo. E comecei a chorar ainda mais. Ele tentou me acalmar dizendo que ele quis dizer um adulto como ele, ou um professor, ou um psicólogo. Mas não funcionou, e por fim meu irmão foi à escola em seu Camaro para me pegar.
Pelo resto do ano letivo, os professores me trataram de forma diferente e me deram notas melhores, apesar de eu não ter ficado mais inteligente. Para falar com franqueza, acho que eu os deixava nervosos.
O funeral de Michael foi estranho, porque o pai dele não chorou. E três meses depois, ele deixou a mãe de Michael. Pelo menos foi o que Dave me disse no refeitório. Às vezes eu penso nisso. Imagino o que acontecia na casa de Michael na hora do jantar e dos programas de tevê. Michael não deixou nem um bilhete, ou pelo menos seus pais não deixaram ninguém ver um. Talvez fossem “problemas em casa”. Eu bem que gostaria de saber. Assim sentiria a falta dele com mais clareza. A dor poderia fazer sentido.
Uma coisa que eu sei é que isso me faz perguntar se tenho “problemas em casa”, mas parece que muita gente tem problemas muito piores do que os meus.
Por exemplo, quando o primeiro namorado da minha irmã começou a sair com outra garota e minha irmã chorou o fim de semana inteiro. Meu pai disse que “há pessoas que passam por coisa muito pior”. Minha mãe ficou em silêncio. E acabou. Um mês depois, minha irmã conheceu outro cara e começou a ouvir música animada de novo. Meu pai continuou trabalhando. Minha mãe continuou varrendo. Meu irmão continuou consertando seu Camaro. Quer dizer, até que ele teve de ir para a faculdade no início do verão. Ia jogar futebol pela Penn State, mas precisou do verão para conseguir as notas certas para jogar futebol.
Não acho que alguém fosse o favorito na minha família. Nós somos três e eu sou o mais novo. Meu irmão é o mais velho. Ele é um jogador de futebol muito bom e adora seu carro. Minha irmã é muito bonita, e má com os garotos, e é a filha do meio. Eu tiro nota máxima direto agora, como minha irmã, e é por isso que eles me deixam em paz.
Minha mãe chora muito com os programas de tevê. Meu pai trabalha muito e é um homem honesto. Minha tia Helen costumava dizer que meu pai era orgulhoso demais para ter uma crise de meia-idade. Até agora não entendi o que ela quis dizer, porque ele acabou de fazer quarenta e nada mudou.
Minha tia Helen era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. Ela era irmã da minha mãe. Só tirava A quando estava na escola e costumava me dar livros para ler. Meu pai disse que os livros eram muito antigos para mim, mas eu gostava deles, então ele dava de ombros e me deixava ler.
Tia Helen morou com minha família nos últimos anos de sua vida porque às vezes aconteciam coisas muito ruins com ela. Ninguém me disse o que aconteceu na época, embora eu sempre quisesse saber. Quando eu tinha uns sete anos, parei de perguntar sobre isso, porque ficava perguntando sem parar, como as crianças sempre fazem, e tia Helen começava a chorar muito. Foi quando meu pai me deu um tapa, dizendo: “Você está ferindo os sentimentos da tia Helen!” Eu não queria fazer isso, então parei. Tia Helen disse a meu pai para nunca mais bater em mim na frente dela, e meu pai disse que a casa era dele e ele fazia o que queria, e minha mãe ficou quieta, como meu irmão e minha irmã.
Não me lembro de muito mais do que isso porque comecei a chorar muito mesmo, e depois de algum tempo meu pai e minha mãe me levaram para o meu quarto. Foi só muito tempo depois que minha mãe bebeu uns copos de vinho branco e me disse o que tinha acontecido com a irmã dela. Algumas pessoas passam por coisas muito piores do que as minhas. É verdade.
Acho que devo dormir agora. Está muito tarde. Não sei por que escrevo essas coisas para você ler. Estou escrevendo esta carta porque as aulas começam amanhã e estou com muito medo de ir.
Com amor,
Charlie.
 
 
7 de setembro de 1991
 
Querido amigo,
Eu não gosto do colégio. O refeitório é chamado de “Centro de Nutrição”, o que é estranho. Tem uma garota na minha turma de inglês avançado chamada Susan. No primeiro grau, era muito divertido ter a Susan por perto. Ela gostava de cinema, e seu irmão Frank gravou para ela uma fita com aquela música ótima que ela compartilhava conosco. Mas, durante o verão, ela tirou o aparelho dos dentes, ficou um pouco mais alta e mais bonita e os peitos cresceram. Agora ela age como uma idiota nos corredores, especialmente quando os garotos estão por ali. E eu acho isso chato, porque Susan não parece feliz. Para dizer a verdade, ela não gosta de reconhecer que é da minha turma de inglês avançado, e não gosta de dizer “oi” para mim na entrada do colégio.
Quando estava na reunião do orientador educacional sobre o Michael, Susan falou que Michael uma vez disse a ela que ela era a garota mais bonita do mundo, com aparelho nos dentes e tudo. Então ela pediu para “namorar ele”, o que seria ótimo em qualquer escola. Ele disse que ia “namorar” no segundo grau. E eles se beijaram e falaram de cinema, e ela sentiu terrivelmente a morte dele porque era seu melhor amigo.
É divertido, também, porque normalmente os meninos e meninas não eram bons amigos na minha escola. Mas Michael e Susan eram. Como entre eu e tia Helen. Opa, desculpe. “Entre mim e tia Helen.” Foi uma coisa que aprendi esta semana. Isso e a fazer uma pontuação correta.
Fiquei em silêncio a maior parte do tempo, e só um garoto chamado Sean realmente pareceu perceber minha presença. Estava esperando por mim depois da aula de educação física e disse coisas muito infantis, tipo que ele iria me dar um “caldo”, que é quando alguém enfia sua cabeça na privada e dá descarga para fazer seu cabelo redemoinhar. Ele parecia muito infeliz também, e eu disse isso a ele. Depois ele enlouqueceu e começou a bater em mim, e então fiz as coisas que meu irmão me ensinou. Meu irmão é um lutador muito bom.
“Bata nos joelhos, na garganta e nos olhos.”
E foi o que eu fiz. E acabei machucando o Sean de verdade. E depois ele começou a chorar. Minha irmã teve de sair da sala dos veteranos e me levar para casa. Fui chamado na sala do Sr. Small, mas não fui suspenso nem nada porque um garoto disse ao Sr. Small a verdade sobre a briga.
“Foi o Sean que começou. Foi legítima defesa.”
E foi mesmo. Eu não entendo por que o Sean queria bater em mim. Eu não fiz nada a ele. E sou muito pequeno. Mas acho que Sean não sabia que eu sabia lutar. A verdade é que eu podia tê-lo machucado muito mais. E talvez tivesse feito. Acho que faria, se ele tivesse perseguido o garoto que disse a verdade ao Sr. Small, mas Sean nunca fez isso. Então, as coisas foram esquecidas.
Alguns garotos me olharam de uma forma estranha no corredor porque não decorei o segredo da minha fechadura, sou o cara que bateu no Sean e não consegui parar de chorar depois disso. Acho que sou muito sentimental.
Tenho estado assim só porque minha irmã está ocupada sendo a mais velha da família. Meu irmão está ocupado sendo um jogador de futebol na Penn State. Depois do treino no campo, o treinador disse que ele era reserva, mas quando aprendesse o sistema, seria titular.
Meu pai torce muito para que ele se profissionalize e jogue nos Steelers. Minha mãe só está feliz por ele ter ido para a faculdade de graça, porque minha irmã não joga futebol e não haveria dinheiro bastante para mandar os dois para a universidade. É por isso que ela quer que eu dê duro na escola, porque assim consigo uma bolsa de estudos.
Então é isso o que estou fazendo até encontrar um amigo por aqui. Eu espero que o garoto que disse a verdade seja meu amigo, mas acho que ele só estava sendo um bom garoto contando tudo.
Com amor,
Charlie.
 

 
11 de setembro de 1991
 
Querido amigo,
Eu não tenho muito tempo porque meu professor de inglês avançado me deu um livro para ler e gosto de ler os livros duas vezes. Por acaso, o livro é O sol nasce para todos. Se você ainda não leu, acho que deve, porque é muito interessante. O professor me disse para ler alguns capítulos de cada vez, mas eu não gosto de ler os livros dessa forma. Leio logo metade dele na primeira vez.
Mas eu estou escrevendo porque vi meu irmão na televisão. Normalmente não gosto muito de esportes, mas essa foi uma ocasião especial. Minha mãe começou a chorar, e meu pai colocou o braço em seu ombro, e minha irmã sorriu, o que é engraçado, porque meu irmão e minha irmã sempre brigam quando ele está por aqui.
Mas meu irmão mais velho estava na televisão, e até agora foi a melhor coisa que aconteceu em minhas duas semanas de escola. Sinto muita falta dele, o que é estranho, porque nós nunca conversamos muito quando ele está aqui. Nós não conversamos nunca, para ser sincero.
Eu diria a você em que posição ele joga, mas, como eu já lhe disse, gostaria de ser anônimo para você. Espero que você entenda.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
16 de setembro de 1991
 
Querido amigo,
Terminei de ler O sol nasce para todos. Agora é meu livro favorito, mas sempre acho que um livro é meu favorito até eu ler outro. Meu professor de inglês avançado me pediu para chamá-lo de “Bill” quando não estivéssemos em aula, e me deu outro livro para ler. Ele diz que eu tenho uma grande habilidade em leitura e compreensão, e queria que eu escrevesse um trabalho sobre O sol nasce para todos.
Mencionei isso para minha mãe e ela me perguntou por que Bill não recomendou que eu apenas fosse para uma turma de segundo ano. E eu contei a ela que Bill disse que eram basicamente as mesmas turmas com livros mais complicados, e que isso não me ajudaria.
Minha mãe disse que ela não tinha certeza e conversaria com ele durante a reunião de pais. Depois, ela me pediu para ajudá-la a lavar os pratos, o que eu fiz.
Sinceramente, eu não gosto de lavar pratos. Gosto de comer com as mãos e sem guardanapo, mas minha irmã diz que fazer isso é ruim para o meio ambiente. Ela participa do grupo ambientalista da escola secundária e é lá que ela conhece os garotos. Eles são todos muito legais com ela, e não entendo bem por quê, a não ser pelo fato, talvez, de que ela é bonita. Ela realmente maltrata muito aqueles caras.
Um garoto foi particularmente duro. Não vou lhe dizer o nome dele. Mas vou lhe contar tudo sobre ele. Tinha um cabelo castanho muito bonito e o usava comprido e com um rabo-de-cavalo. Acho que ele vai se arrepender quando pensar no que fez. Ele estava sempre gravando fitas para minha irmã com temas muito específicos. Uma se chamava “Folhas de Outono”. Ele incluiu muitas canções dos Smiths. Fez até uma capa colorida. Depois que o filme que ele pegou na locadora terminou, minha irmã me deu a fita. “Quer para você, Charlie?”
Peguei a fita, mas achei estranho, porque ele tinha gravado para ela. Mas ouvi. E adorei. Tem uma canção chamada “Asleep” que eu gostaria que você ouvisse. Falei com minha irmã sobre isso. E uma semana depois ela agradeceu a mim, porque quando o garoto perguntou a ela sobre a fita, ela disse exatamente o que eu tinha dito sobre a canção “Asleep”, e ele ficou muito emocionado por causa do significado que teve para ela. Espero que isso signifique que eu serei bom em namorar quando tiver idade para isso.
Mas eu tenho que ir direto ao assunto. É isso que Bill, meu professor, me diz para fazer, porque escrevo como eu falo. Acho que é por isso que ele quer que eu escreva um trabalho sobre O sol nasce para todos.
Esse cara que gosta da minha irmã é sempre respeitoso com meus pais. Minha mãe gosta muito dele por causa disso. Meu pai o acha gentil. Eu acho que é por isso que minha irmã faz o que faz com ele.
Teve uma noite em que ela disse coisas muito cruéis sobre como ele não enfrentou o valentão da turma quando tinha quinze anos ou coisa parecida. Para falar a verdade, eu estava vendo o filme que ele tinha alugado, então não estava prestando muita atenção na briga. Eles brigam o tempo todo, e então imaginei que o filme seria pelo menos um pouco diferente, e acabou que não era, porque era uma sequência.
De qualquer forma, depois que ela se encostou nele por umas quatro cenas do filme, o que acho que durou uns dez minutos ou mais, ele começou a chorar. E chorou muito. Depois, eu me virei e minha irmã estava apontando para mim.
“Tá vendo? Até o Charlie enfrentou um valentão. Tá vendo?”
E o cara ficou muito vermelho. E olhou para mim. Depois olhou para ela. E ele ergueu o braço e desceu a mão na cara da minha irmã. Bateu forte mesmo. Eu gelei, porque não consegui acreditar que ele tinha feito aquilo. Ele não era o tipo de cara que bate em alguém. Ele era o cara que gravava fitas com temas e fazia capas coloridas, até que bateu na minha irmã e ela parou de chorar.
A parte esquisita é que minha irmã não fez nada. Ela só olhou para ele em completo silêncio. Isso foi muito estranho. Minha irmã fica furiosa se você come o tipo errado de atum, mas aqui estava um cara batendo nela, e ela não disse nada. Só ficou dócil e amável. E me pediu para sair, e eu saí. Depois que o garoto foi embora, ela disse que eles estavam “terminando” e que eu não contasse à mamãe e ao papai o que tinha acontecido.
Acho que ele enfrentou o valentão dele. E acho que isso faz sentido.
Naquele fim de semana, minha irmã passou um tempão com esse cara. E eles riram muito mais do que em geral faziam. Na sexta à noite, eu estava lendo meu livro novo, mas minha cabeça estava cansada, então decidi ver um pouco de televisão, em vez de ler. E abri a porta para o porão, e minha irmã e o namorado estavam nus.
Ele estava por cima dela, e suas pernas dobradas de cada lado do sofá. E ela sussurrou para mim: “Vá embora. Seu pervertido”.
Então eu saí. No dia seguinte, nós todos vimos meu pai jogar futebol. E minha irmã convidou o cara. Não tenho certeza se ele foi para casa na noite anterior. Estavam de mãos dadas e agiam como se estivessem muito felizes. E esse cara disse alguma coisa sobre o time de futebol não ser o mesmo desde que meu irmão se formou, e meu pai agradeceu a ele. E quando o cara foi embora, meu pai disse que esse garoto estava se tornando um homem educado, que sabia se comportar. E minha mãe ficou em silêncio. E minha irmã olhou para mim para ter certeza de que eu não diria nada. E foi assim.
“É. Ele é”.
Foi tudo o que minha irmã conseguiu dizer.
E eu podia ver esse cara na casa dele fazendo seu dever da escola e pensando na minha irmã nua. E podia ver os dois de mãos dadas nos jogos de futebol a que eles não assistiam. E podia ver esse cara vomitando no jardim em uma festa. E podia ver minha irmã se sujeitando a ele. E eu achei isso muito ruim para os dois.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
18 de setembro de 1991
 
Querido amigo,
Já lhe contei que estou na turma de trabalhos manuais? Bom, eu estou na turma de trabalhos manuais e é minha aula favorita depois da aula de inglês avançado de Bill. Escrevi o trabalho sobre O sol nasce para todos na noite passada e entreguei a Bill esta manhã. Ficamos de falar sobre isso durante o almoço de amanhã.
A questão, contudo, é que tem um cara na minha turma de trabalhos manuais chamado “Nada”. Não estou brincando. O nome dele é “Nada”. E ele é hilário. “Nada” ganhou esse nome quando as crianças o sacaneavam no primeiro grau. Acho que ele é um veterano agora. Os garotos começaram a chamá-lo de Patty, quando o nome dele na verdade é Patrick. E “Nada” disse aos garotos: “Olha só, tanto faz que vocês me chamem de Patrick ou de nada”.
Assim, os garotos começaram a chamá-lo de “Nada”. E o nome acabou pegando. Ele era novo no bairro na época porque o pai dele tinha se casado pela segunda vez com uma mulher dessa região. Acho que vou parar de colocar aspas em Nada porque é chato e interrompe o fluxo do que escrevo. Espero que você não ache difícil me acompanhar. Terei o cuidado de diferenciar se for necessário.
Então, na aula de trabalhos manuais, o Nada começou a fazer uma imitação muito engraçada de nosso professor, o Sr. Callahan. Ele chegou a pintar costeletas com um lápis de cera. Hilário.
Quando descobriu o Nada fazendo isso perto da lixadeira, o Sr. Callahan riu, porque o Nada não estava fazendo a imitação por maldade nem nada assim. É só que era engraçado. Eu queria que você estivesse lá, porque eu nunca ri tanto desde que meu irmão foi embora. Meu irmão costumava contar piadas de polonês, o que eu sei que é errado, mas eu bloqueava a parte do polonês e ouvia as piadas.
Era hilário. Ah, aliás, minha irmã me pediu a fita “Folhas de Outono” de volta. Agora ela ouve a fita o tempo todo.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
29 de setembro de 1991
 
Querido amigo,
Tenho um monte de coisas para contar a você sobre as duas últimas semanas. Muita coisa boa, mas muita coisa ruim também. Mais uma vez, não sei por que isso sempre acontece.
Para começar, Bill me deu uma nota C por meu trabalho sobre O sol nasce para todos, porque ele disse que eu misturo minhas frases. Agora estou tentando não fazer desse jeito. Ele também disse que devo usar as palavras do vocabulário que aprendo na aula, como “corpulento” e “icterícia”. Eu as usaria aqui, mas não acho que sejam apropriadas para um texto como este.
Para falar a verdade, eu não sei onde elas são apropriadas. Não estou dizendo que você não deve conhecê-las. Você conhece, com toda a certeza. Mas é só que eu nunca ouvi ninguém usando as palavras “corpulento” e “icterícia” em toda minha vida. E isso inclui os professores. Então, por que usar palavras que ninguém conhece ou usa normalmente? Essa é uma coisa que eu não entendo.
Acho a mesma coisa de algumas estrelas de cinema a que são terríveis de assistir. Algumas daquelas pessoas devem ter um milhão de dólares pelo menos, e, ainda assim, elas continuam fazendo esses filmes. Elas se destroem com os caras errados. Elas gritam com seus seguranças. Eles dão entrevistas a revistas. Toda vez que eu vejo uma certa atriz de cinema em uma revista, não consigo deixar de sentir pena delas, porque ninguém as respeita de jeito nenhum, e ainda assim elas continuam dando entrevistas. E todos os entrevistadores dizem a mesma coisa.
Eles começam dizendo o que elas comem em um determinado restaurante. “Enquanto mastigava lentamente sua salada de frango chinês, ____ falou de amor.” E todas as capas dizem a mesma coisa: ____ revela o que pensa do sucesso, do amor e de seu novo filme/programa de tevê/disco.”
Acho que é legal para as estrelas darem entrevistas para fazer com que a gente pense que elas são como nós, mas, para falar com franqueza, tenho a sensação de que é tudo uma grande farsa. O problema é que eu não sei quem está mentindo. E eu não sei por que essas revistas vendem tanto. E não entendo por que as mulheres no consultório do dentista gostam tanto delas. No sábado passado, eu estava no dentista e ouvi essa conversa:
― Você viu esse filme? ― Ela apontou para a capa.
― Vi. Fui ver com o Harold.
― O que você achou?
― Ela estava simplesmente maravilhosa.
― Ah, é. Ela é maravilhosa mesmo.
― Ah, eu fiz essa receita nova.
― É de baixa caloria?
― Hum-hum.
― Tem algum tempo livre amanhã?
― Não. Por que você não diz ao Mike para mandar um fax ao Harold?
― Está bem.
Então essas mulheres começaram a falar de uma atriz que eu mencionei antes, e as duas tinham opiniões muito fortes:
― Acho que é uma vergonha.
― Você leu a entrevista na Good Housekeeping!
― De meses atrás?
― É.
― Uma vergonha.
― Você leu aquela na Cosmopolitan?
― Não.
― Meu Deus, foi praticamente a mesma entrevista.
― Não sei por que ainda dão bom-dia a ela.
O fato de que uma dessas mulheres era minha mãe me chateou particularmente, porque minha mãe é bonita. E ela sempre está de dieta. Às vezes, meu pai diz que ela está bonita, mas ela não ouve o que ele diz. Aliás, meu pai é um marido muito bom. Ele só é pragmático.
Depois do dentista, minha mãe me levou de carro ao cemitério, onde muitos parentes dela foram enterrados. Meu pai não gosta de ir ao cemitério porque dá arrepios nele. Mas eu não me importo de ir, porque minha tia Helen está enterrada lá. Minha mãe sempre foi a filha mais bonita, como eles dizem, e minha tia Helen sempre foi a rejeitada. O que é legal é que tia Helen nunca fez dieta. E tia Helen era “corpulenta”. Ei, eu consegui!
Tia Helen sempre deixou a gente ficar acordada para ver Saturday Night Live quando ficava tomando conta da gente ou quando estava morando conosco e meus pais iam na casa de outro casal para beber e jogar jogos de tabuleiro. Quando eu era muito pequeno, lembro de ir dormir, enquanto meu irmão, minha irmã e tia Helen viam O barco do amor e A Ilha da Fantasia. Nunca pude ficar acordado quando era pequeno, e eu queria ficar, porque meu irmão e minha irmã falavam desses momentos às vezes. Talvez seja chato que agora isso seja somente lembranças. E talvez não seja chato. E talvez seja só o fato de que nós adorávamos a tia Helen, especialmente eu, e era nessa época que eu podia ficar com ela.
Não vou começar a falar de lembranças de episódios de televisão, exceto de um, porque acho que nós fomos o tema, e é como aquelas coisas que a gente pode contar aos outros. Como eu não conheço você, imagino que talvez possa escrever sobre algo que você possa contar.
A família estava sentada, vendo o episódio final de M*A*S*H e eu nunca vou me esquecer disso, embora fosse muito novo. Minha mãe estava chorando. Minha irmã estava chorando. Meu irmão estava fazendo toda a força que podia para não chorar. E meu pai saiu durante uma das cenas finais para fazer um sanduíche. Agora eu não me lembro muito do programa em si, porque eu era muito novo, mas meu pai nunca faz sanduíche, a não ser durante intervalos comerciais, e em geral ele só manda minha mãe fazer. Eu fui até a cozinha e vi meu pai fazendo um sanduíche… e chorando. Ele estava chorando muito mais até que a minha mãe. Mal pude acreditar. Quando ele terminou de fazer o sanduíche, colocou as coisas na geladeira, parou de chorar, esfregou os olhos e me viu.
Depois ele caminhou, deu um tapinha no meu ombro e disse: “Esse é nosso segredinho, tá bom, campeão?”
“Tá bom”, eu disse.
E papai me levantou pelo braço que não estava segurando o sanduíche, me levou para a sala que tinha a televisão e me colocou no seu colo pelo resto do episódio. No final do programa, ele se levantou, desligou a tevê, olhou ao redor e disse:
― Foi um grande seriado.
― O melhor ― minha mãe falou.
E minha irmã perguntou:
― Quanto tempo ficou no ar?
― Nove anos, idiota ― respondeu meu irmão.
E minha irmã disse:
― Idiota é você.
― Parem com isso agora ― ordenou meu pai.
E minha mãe disse:
― Ouçam o que seu pai está dizendo.
E meu irmão não disse nada.
E minha irmã não disse nada.
E anos depois eu descobri que meu irmão estava errado.
Fui até a biblioteca para procurar informações e descobri que o episódio a que nós assistimos foi o de maior audiência da história da televisão, o que me surpreendeu, porque havia apenas cinco de nós naquela sala.
Sabe como é… Um monte de crianças na escola odeia os pais. Alguns apanham deles. E alguns acabam caindo em uma vida errada. Alguns eram troféus para seus pais mostrarem aos vizinhos, como faixas ou medalhas de ouro. E alguns deles só queriam beber em paz.
Para mim, particularmente, apesar de não entender minha mãe e meu pai, e apesar de às vezes eu ter pena deles, não posso deixar de amá-los muito. Minha mãe vai ao cemitério de carro para visitar as pessoas que ela ama. Meu pai chorou durante o M*A*S*H, e confiou em mim para guardar segredo, me deixou sentar no colo dele e me chamou de “campeão”.
Aliás, eu só tenho uma cárie e, como disse meu dentista, não posso deixar de usar fio dental.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
6 de outubro de 1991
 
Querido amigo,
Estou envergonhado. Eu queria ir ao jogo de futebol americano do segundo grau no outro dia e não sei bem por quê. No primeiro grau, às vezes Michael e eu íamos aos jogos, apesar de nenhum de nós ser popular o bastante para ir. Era só um lugar para se ir às sextas-feiras, quando não queríamos ver televisão. Às vezes, víamos a Susan por lá, e ela e Michael ficavam de mãos dadas.
Mas, desta vez, eu fui sozinho porque o Michael se foi, e Susan agora andava com garotos diferentes, e Bridget ainda é maluca, e a mãe do Cari o mandou para uma escola católica, e o Dave dos óculos esquisitos se mudou. Eu era só uma espécie de espectador, vendo quem estava namorando e quem estava de mãos dadas, e eu vi aquele garoto de que lhe falei. Lembra do Nada? O Nada estava lá no jogo de futebol e era uma das poucas pessoas que não era adulta que estava assistindo realmente ao jogo. Quero dizer, estava assistindo ao jogo mesmo. Ele gritava coisas:
“Vamos lá, Brad!”
Esse era o nome de nosso quarterback.
Agora, normalmente sou muito tímido, mas o Nada parecia o tipo de cara com quem você pode ir a um jogo de futebol, apesar de você ser três anos mais novo e não ser popular.
― Ei, você está na minha turma de trabalhos manuais! ― Ele era muito simpático.
― Eu sou o Charlie ― disse eu, sem timidez demais.
― E eu o Patrick. E esta é Sam. ― Ele apontou para uma garota muito bonita perto dele.
E ela se voltou para mim.
― E aí, Charlie? ― Sam tinha um sorriso muito bonito.
Os dois me disseram para sentar, e pareciam falar a sério, então sentei. Ouvi o Nada gritando para o campo. E ouvi sua análise das jogadas. E imaginei que esse era o tipo de cara que conhecia futebol americano muito bem. Ele realmente conhecia futebol, como meu irmão. Talvez eu devesse chamar o Nada de “Patrick” de agora em diante, uma vez que agora ele se apresentou a mim e é assim que a Sam o chama.
Aliás, Sam tem cabelos castanhos e olhos verdes muito lindos. O tipo de verde que não revela muita coisa sobre a pessoa. Eu teria contado isso a você antes, mas, sob as luzes do estádio, tudo parecia meio desbotado. Foi só quando fomos para o Big Boy, e Sam e Patrick começaram a fumar, que eu dei uma boa olhada nela. O que foi legal no Big Boy foi o fato de que Patrick e Sam não faziam somente piadas particulares, me obrigando a tentar acompanhá-los. De jeito nenhum. Eles me fizeram perguntas:
― Quantos anos você tem, Charlie?
― Quinze.
― O que você quer fazer quando crescer?
― Ainda não sei bem.
― Qual é a sua banda favorita?
― Acho que os Smiths, porque adoro a música “Asleep”, mas eu não tenho certeza porque não conheço as outras canções deles muito bem.
― Qual é o seu filme favorito?
― Não sei bem. Eles parecem todos iguais para mim.
― E seu livro favorito?
― Este lado do paraíso, do E Scott Fitzgerald.
― Por quê?
― Porque foi o último que li.
Isso fez eles rirem, porque sabiam que eu estava sendo sincero, não estava me exibindo. Depois eles me contaram quais eram os favoritos deles e eu fiquei sentado em silêncio. Comi torta de abóbora porque a moça disse que estava na estação, e Patrick e Sam fumaram mais cigarros.
Olhei para eles e pareciam muito felizes juntos. Um tipo de felicidade legal. E apesar de eu ter achado a Sam muito bonita e legal, e ela ser a primeira garota que eu já quis convidar para sair quando pudesse dirigir, não me importei que ela tivesse namorado, especialmente se ele era um cara legal como o Patrick.
― Há quanto tempo vocês estão juntos? ― perguntei.
Então eles começaram a rir. E riram muito mesmo.
― O que tem de tão engraçado nisso?
― Nós somos irmãos ― disse Patrick, ainda rindo.
― Mas não parece ― respondi.
E aí Sam explicou que eles na verdade eram meio-irmãos, porque o pai de Patrick se casou com a mãe dela. Fiquei muito feliz em saber disso porque eu queria muito convidar a Sam para sair um dia desses. Realmente queria. Ela era muito legal.
Mas fiquei com vergonha, porque naquela noite tive um sonho estranho. Foi com Sam. E nós dois estávamos nus. E suas pernas estavam jogadas nas laterais do sofá. E eu acordei. E nunca tinha sentido nada tão bom na minha vida. Mas eu também me senti mal, porque vi Sam nua sem a permissão dela. Acho que eu devia contar a Sam sobre o sonho, e espero realmente que isso não impeça que talvez a gente faça nossas piadas particulares. Seria muito legal ter um amigo novamente. Gostaria disso mais do que de uma namorada.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
14 de outubro de 1991
 
Querido amigo,
Você sabe o que é “masturbação”? Acho que você deve saber porque é mais velho que eu. Mas, de qualquer forma, eu vou contar a você. Masturbação é quando você esfrega seus genitais até ter um orgasmo. Uau!
Eu pensava que naqueles filmes e programas de teve quando eles falavam de fazer uma pausa para o café, que eles deviam ter uma pausa para a masturbação. Mas, pensando bem, acho que isso diminuiria a produtividade.
Só estou sendo engraçadinho aqui. Eu não quis dizer realmente isso. Só queria fazer você rir.
Eu disse a Sam que sonhei que ela e eu estávamos nus no sofá, e comecei a chorar porque me senti mal, e sabe que ela fez? Ela riu.
Não um riso maldoso, isso não. Um riso caloroso, realmente legal. Ela disse que pensava que eu estava brincando. E disse que estava tudo bem eu ter sonhado com ela. E eu parei de chorar. Sam depois me perguntou se eu a achava bonita, e eu disse que achava que ela era “adorável”. Sam, então, olhou bem nos meus olhos.
― Você sabe que é novo demais para mim, não é Charlie? Você sabe disso, né?
― É, eu sei.
― Eu não quero que você perca seu tempo pensando em mim desta forma.
― Eu não penso. Foi só um sonho.
Sam então me deu um abraço, e foi estranho, porque minha família nunca se abraçou muito, exceto minha tia Helen. Mas, depois de alguns segundos, eu pude sentir o perfume de Sam, e pude sentir seu corpo contra o meu. E eu recuei.
― Sam, estou pensando em você daquele jeito.
Ela apenas olhou para mim e sacudiu a cabeça.
Depois colocou o braço em torno dos meus ombros e caminhou comigo pelo corredor. Encontramos Patrick do lado de fora porque às vezes eles não gostam de ir à aula. Eles preferiam fumar.
― Charlie teve uma “charlice” por minha causa, Patrick.
― Ele teve, é?
― Estou tentando não ter ― eu disse, o que fez com que eles rissem.
Patrick então pediu a Sam para sair, o que ela fez, e explicou algumas coisas a mim, assim eu saberia como abordar outras garotas e não perder meu tempo pensando na Sam daquele jeito.
― Charlie, ninguém disse a você como isso funciona?
― Acho que não.
― Bom, tem algumas regras que devem ser seguidas aqui, não porque você queira, mas porque tem de seguir. Entendeu?
― Acho que sim.
― Está bem. Veja as garotas, por exemplo. Elas imitam as mães, as revistas e tudo o que precisam saber sobre como abordar os garotos.
Pensei nas mães, nas revistas e em todo tipo de coisa, e o pensamento me deixou nervoso, especialmente quando isso inclui a tevê.
― Eu quero dizer que não é como nos filmes, em que as garotas gostam de idiotas ou coisa parecida. Não é tão fácil assim. Elas gostam de alguém que possa dar a elas um propósito.
― Um propósito?
― É. Sabe como é, as garotas gostam de caras que representem um desafio. Isso dá a elas um modelo que determina que devem agir como uma mãe. O que uma mãe faria se não pudesse obrigar você a usar fio dental e mandasse você limpar seu quarto? E o que você faria sem o fio dental e as ordens dela? Todo mundo precisa de uma mãe. E uma mãe sabe disso. E isso dá a ela um senso de propósito. Sacou?
― Saquei ― eu disse, apesar de não ter sacado nada. Mas entendi o bastante para dizer “Saquei” sem mentir.
― O caso é que algumas garotas acham que podem mudar os caras. E o engraçado é que, se elas realmente os mudassem, ficariam entediadas. Não teriam desafio nenhum. Você deve dar às garotas algum tempo para pensar em uma nova forma de fazer as coisas, é isso. Algumas resolvem isso rapidamente. Algumas mais tarde. Outras nunca. Eu não me preocuparia muito com isso.
Mas acho que fiquei preocupado com isso. Fiquei preocupado com isso desde que ele falou comigo. Eu via as pessoas de mãos dadas nos corredores e tentava entender como tudo isso funciona. Nos bailes da escola, eu sento n fundo, fico tamborilando com os dedos e imagino como muitos casais dançarão a “sua música”. Nos corredores vejo as garotas vestindo as jaquetas dos rapazes e penso no conceito de propriedade. E me pergunto se alguém é realmente feliz. Espero que sejam. Realmente espero que sejam.
Bill me viu olhando as pessoas e, depois da aula, me perguntou no que eu estava pensando, e eu disse a ele. Ele ouviu, concordou com a cabeça e fez ruídos afirmativos. Quando eu terminei, seu rosto mudou para uma expressão de “papo sério”.
― Você sempre pensa muito nisso, Charlie?
― Isso é ruim?
Eu só queria que alguém me dissesse a verdade.
― Não necessariamente. É só que às vezes as pessoas usam o pensamento para não participar da vida.
― Isso é ruim?
― É.
― Mas eu acho que participo. Você não acha?
― Bom, você dança nesses bailes?
― Eu não sei dançar bem.
― Está saindo com garotas?
― Bom, eu não tenho carro, e mesmo que tivesse, não poderia dirigir porque só tenho quinze anos, e, de qualquer forma, não conheci nenhuma garota de que gostasse, exceto a Sam, mas sou novo demais para ela, e ela teria de dirigir sempre, o que não acho certo.
Bill sorriu e continuou a me fazer perguntas. Lentamente, ele passou para os “problemas em casa”. E eu falei com ele do cara que grava fitas que bateu na minha irmã, porque minha irmã só me disse para não contar à mamãe ou ao papai sobre isso, então eu imaginei que podia contar para o Bill. Ele assumiu uma expressão séria depois que contei a ele, e disse alguma coisa para mim que não acho que vou esquecer nem neste semestre nem nunca.
― Charlie, a gente aceita o amor que acha que merece.
Eu fiquei ali, quieto. Bill deu um tapinha no meu ombro e um novo livro para ler. Depois disse que estava tudo bem.
Em geral, eu vou para casa a pé depois da escola porque faz com que eu me sinta digno de mérito. Quero dizer que quero poder contar a meus filhos que eu ia a pé da escola para casa como meus avós fizeram nos “velhos tempos”. É estranho que eu esteja planejando isso, considerando que nunca tive uma namorada, mas acho que faz sentido. Em geral, ir a pé leva uma hora a mais do que de ônibus, mas só vale a pena quando o tempo está bom e frio, como o de hoje.
Quando finalmente cheguei em casa, minha irmã estava sentada numa cadeira. Minha mãe e meu pai estavam sentados de frente para ela. E eu soube que Bill tinha ligado para casa e falado com eles. E me senti péssimo. A culpa foi toda minha.
Minha irmã estava chorando. Minha mãe estava muito quieta. Só meu pai falava. Ele disse que minha irmã nunca mais ia ver o rapaz que tinha batido nela, e que ia ter uma conversa com os pais do garoto naquela noite. Minha irmã então disse que tinha sido culpa dela, que ela o havia provocado, mas meu pai disse que aquilo não era desculpa.
― Mas eu o amo! ― Nunca vi minha irmã chorar tanto.
― Não ama não.
― Eu odeio você!
― Não odeia não. ― Meu pai às vezes podia ser muito calmo.
― Ele é a minha vida.
― Nunca mais diga uma coisa dessas novamente. Nem mesmo para mim. ― Era minha mãe falando.
Minha mãe escolhe suas batalhas cuidadosamente: posso dizer a você uma coisa sobre a minha família. Quando minha mãe diz alguma coisa, ela sempre consegue o que quer. E naquela hora não foi exceção. Minha irmã parou chorar de imediato.
Depois disso, meu pai deu um raro beijo na testa minha irmã. Saiu de casa, foi para o seu Olds mobile e deu a partida. Acho que ele foi conversar com os pais do cara. E eu fiquei com muita pena deles. Dos pais dele, que dizer. Porque meu pai não perde uma briga. Nunca.
Minha mãe depois foi para a cozinha, para fazer a comida favorita da minha irmã, e minha irmã olhou para mim.
― Eu odeio você.
Minha irmã disse isso de uma forma diferente de quando falou com meu pai. Ela quis dizer isso pra mim. Quis mesmo.
― Eu te amo ― foi o que consegui responder.
― Você é um anormal, sabia? Sempre foi anormal. Todo mundo diz isso. Sempre disseram.
― Estou tentando não ser assim.
Depois, eu me virei, fui para o meu quarto, fechei a porta e coloquei minha cabeça no travesseiro. Deixei que o silêncio colocasse as coisas no lugar em que elas deveriam estar.
Por falar nisso, imagino que você deve estar curioso a respeito do meu pai. Será que ele batia em nós quando éramos crianças ou bate agora? Estou achando que você deve estar curioso porque o Bill ficou, depois que eu contei a ele sobre o cara e minha irmã. Bom, se é isso que está pensando, não, ele não bate. Ele nunca encostou umdedo em meu irmão ou na minha irmã. E a única vez em que ele me deu um tapa foi quando eu fiz tia Helen chorar. E depois que nós nos acalmamos, ele se ajoelhou na minha frente e disse que o padrasto dele tinha batido muito nele, e ele decidiu na faculdade, quando minha mãe estava grávida de meu irmão mais velho, que nunca bateria nos filhos. E ele se sentiu muito mal por ter feito isso. E ele estava tão arrependido. E nunca mais bateu em mim de novo. Ele só é duro às vezes.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
15 de outubro de 1991
 
Querido amigo,
Acho que esqueci de dizer em minha última carta que foi o Patrick que me falou de masturbação. Acho que esqueci de dizer a você a frequência com que eu faço isso, que é muita. Eu não gosto de olhar fotos. Só fecho meus olhos e imagino uma mulher que não conheço. E eu tento não ter vergonha. Nunca pensei na Sam quando faço isso. Nunca. Isso é muito importante para mim, porque fiquei muito feliz quando ela disse “charlice”, porque achei que era uma espécie de piada particular.
Uma noite, eu me senti tão culpado que prometi a Deus que nunca mais faria isso novamente. Então comecei a usar os cobertores, mas os cobertores machucavam, então comecei a usar o travesseiro, mas o travesseiro machucava, então eu voltei ao normal. Eu não fui criado com muita religião porque meus pais frequentaram a escola católica, mas acredito muito em Deus. Só nunca dei um nome a Deus, entende o que quero dizer? Espero não O estar decepcionando, apesar disso.
Aliás, meu pai teve uma conversa séria com os pais do garoto. A mãe do cara ficou com muita raiva e gritou com o filho. O pai ficou quieto. E meu pai não foi inconveniente com eles. Não disse a eles que eles fizeram um “trato ruim” na criação do filho ou coisa parecida.
No que dizia respeito a ele, só o que lhe interessava manter o filho deles longe da sua filha. Uma vez que ficasse claro, ele deixaria aquela família em paz e iria casa cuidar da própria família. Pelo menos foi como contou.
A única coisa que eu perguntei a meu pai foi sobre os problemas do garoto em casa. Se ele achava que os pais batiam no filho. Ele me disse para cuidar da minha vida. Porque ele não sabia e nunca perguntaria, e não achava que isso tinha importância.
“Nem todo mundo tem uma história triste, Charlie, mesmo que tivesse, isso não é desculpa.”
Foi tudo o que ele disse. E depois ele foi ver televisão.
Minha irmã ainda está zangada comigo, mas meu pai disse que eu fiz a coisa certa. Espero que tenha feito, mas às vezes é duro dizer isso.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
28 de outubro de 1991
 
Querido amigo,
Desculpe por não ter escrito para você por duas semanas, mas eu estava tentando “participar”, como disse o Bill. É estranho, porque às vezes eu leio um livro e acho que sou a pessoa do livro. E também, quando escrevo cartas, fico uns dois dias pensando no que imaginei em minhas cartas. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas eu estou tentando participar.
Aliás, o livro que o Bill me deu era Peter Pan, de J. M. Barrie. Eu sei o que você está pensando. O Peter Pan dos desenhos com os garotos perdidos. O livro é muito melhor que isso. É sobre esse garoto que se recusa a crescer, e quando Wendy cresce, ele se sente traído. Pelo menos foi o que eu entendi. Acho que Bill me deu o livro para me ensinar alguma lição.
A boa notícia é que eu li o livro, e por causa de sua natureza fantástica não fingi que estava no livro. Assim eu consegui participar e ainda assim ler.
No que se refere à minha participação nas coisas, estou tentando ir a eventos sociais que são promovidos na minha escola. É tarde demais para me associar a algum clube ou coisa parecida, mas eu ainda tento ir aos eventos que posso. Coisas como o jogo de futebol de ex-alunos e os bailes, mesmo que eu não tenha namorada.
Não consigo conceber que um dia voltarei para casa para um jogo de futebol de ex-alunos depois que eu sair daqui, mas foi divertido imaginar isso. Encontrei Patrick e Sam sentados em seu lugar de sempre na arquibancada e comecei a fingir que não os via há um ano, embora eu os tenha encontrado naquela tarde no almoço, quando comi minha laranja e eles fumavam cigarro.
“Patrick… é você mesmo? E Sam… faz tanto tempo. Quem está ganhando? Meu Deus, a faculdade é uma barra. Meu professor está me fazendo ler vinte e sete livros em uma semana, e minha namorada precisa de mim para pintar placas de protesto para uma manifestação na terça. Deixe aqueles administradores saberem o que são os negócios. Meu pai está ocupado com o golfe e só o que minha mãe faz é jogar tênis. Precisamos fazer isso de novo. Eu até ficaria, mas tenho de pegar a minha irmã no workshop emocional que ela está fazendo. Ela está indo bem. A gente se vê.”
E então eu saía. Eu faria uma concessão e compraria três nachos e uma diet Coke para a Sam. Quando eu voltasse, me sentaria e daria os nachos a Patrick e a Sam, e a Coke da Sam. E Sam sorriria.
O bom a respeito da Sam é que ela não me acha maluco por fingir essas coisas. E Patrick fica ocupado demais assistindo ao jogo e gritando com Brad, o quarterback.
Sam me disse durante o jogo que mais tarde eles iriam em uma festa na casa de um amigo. Depois ela me perguntou se eu não queria ir também e eu disse que sim, porque nunca fui a uma festa antes. Mas tinha visto uma na minha casa.
Meus pais tinham ido para Ohio para o casamento de uma prima muito distante. Não me lembro bem. E deixaram meu irmão tomando conta da casa que tinha dezesseis anos na época. Meu irmão aproveitou oportunidade para dar uma grande festa com cerveja e dj. Ele me mandou ficar no meu quarto, e por mim estava tudo bem, porque era ali que todo mundo estava guardando os casacos, e foi divertido fuçar todos aqueles bolsos, cada dez minutos mais ou menos, uma garota e um garoto bêbados apareciam ali para ver se podiam se agarrar meu quarto ou coisa parecida. Depois eles me viam e davam o fora. Quer dizer, exceto um casal.
Este casal, que depois fiquei sabendo que era muito popular e estava apaixonado, entrou no meu quarto e perguntou se eu me importava que eles o usassem. Eu disse que meu irmão e minha irmã tinham falado para eu não sair dali, e eles perguntaram se podiam usar o quarto qualquer forma, comigo lá dentro. Eu disse que não vi problema nisso, e eles fecharam a porta e começaram a se beijar. E se beijaram muito. Depois de alguns minutos, mão do cara levantou a blusa da garota e ela começou protestar:
― Para com isso, Dave.
― O quê?
― O garoto está aqui.
― Está tudo bem.
E o cara continuou a levantar a blusa da garota, e embora ela tenha dito não, ele continuou. Depois de alguns minutos, ela parou de reclamar e ele arrancou a blusa dela. Ela usava um sutiã branco com fecho. Eu sinceramente não sabia o que fazer àquela altura. Rapidinho ele tirou o sutiã dela e começou a beijar os seios. E depois ele colocou a mão nas calças dela e ela começou a gemer. Acho que eles estavam muito bêbados. Ele conseguiu tirar as calças dela, mas ela começou a chorar muito, então ele tirou as próprias calças. Arriou as calças e a cueca até os joelhos.
― Não, Dave, por favor, não.
Mas o cara falava mansinho com ela sobre como ela era bonita e coisas assim, e ela pegou o pênis dele e começou a movimentá-lo. Eu acho que podia descrever isso de uma forma mais elegante, sem usar palavras como pênis, mas foi assim que as coisas aconteceram.
Depois de alguns minutos, o cara empurrou a garota para baixo e ela começou a beijar o pênis dele. Ela ainda estava chorando. Finalmente, ela parou de chorar, porque ele colocou o pênis na boca da garota, e eu não acho que dê para chorar nessa situação. Àquela altura, eu tinha parado de olhar, porque comecei a ficar meio enjoado, mas eles continuaram, e fizeram outras coisas, e ela sempre dizia “não”. Até quando eu tapei os ouvidos ainda podia ouvir a garota dizendo isso.
Minha irmã chegou para me levar uma tigela de batatas fritas e, quando ela encontrou o garoto e a garota, eles pararam. Minha irmã ficou muito encabulada, mas não tão encabulada quanto a garota. O cara parecia um pateta. Ele não disse nada. Depois que eles saíram, minha irmã se voltou para mim.
― Eles sabiam que você estava aqui?
― Sabiam. Eles me pediram para usar o quarto.
― Por que você não fez eles pararem?
― Eu não sabia o que eles estavam fazendo.
― Seu pervertido ― foi a última coisa que a minha disse antes de sair do quarto, ainda com a tigela de batatas fritas nas mãos.
Eu contei isso a Sam e Patrick e eles ficaram em silêncio. Sam disse que ela andou saindo com o Dave durante algum tempo, antes de passar a gostar de punk, e Patrick disse que tinha ouvido falar da festa. Eu não me surpreendi com o que ele fez porque tinha se tornado uma espécie de lenda. Pelo menos foi o que ouvi falar quando disse a alguns garotos quem era meu irmão mais velho.
Quando a polícia chegou, encontrou meu irmão dormindo no telhado. Ninguém sabia como ele tinha chegado lá. Minha irmã estava se agarrando na lavanderia com um veterano. Ela era caloura naquela época. Muitos pais chegaram em casa para pegar os filhos, e muitas garotas estavam chorando e vomitando. A maioria dos caras tinha caído fora naquela altura. Meu irmão estava com um problema e minha irmã tinha tido uma “conversa séria” com meus pais sobre más influências. E foi assim que aconteceu.
O garoto chamado Dave agora é veterano. Ele joga time de futebol. Tem um aparelho de som enorme. Eu estava assistindo ao fim do jogo quando Dave pegou um touch down do Brad. Acabou que nossa escola ganhou a partida e as pessoas ficaram malucas nas arquibancadas porque tínhamos vencido. Mas tudo o que eu conseguia pensar era naquela festa. Pensei nisso em silêncio por muito tempo depois olhei para Sam.
― Ele a estuprou, não foi?
Ela apenas concordou. Eu não sabia se ela estava triste ou se só sabia de mais coisas do que eu.
― Nós devíamos contar a alguém, não é?
Sam só sacudiu a cabeça naquela hora. Ela então explicou sobre todas as coisas que você tem de fazer para se mostrar, especialmente no segundo grau, quando o cara e a garota são populares e estão apaixonados.
No dia seguinte ao baile de ex-alunos, eu os vi dançando juntos. Dave e a garota dele. E fiquei furioso. Acho que me assustei com o quanto fiquei furioso. Pensei em ir até o Dave e bater nele, da mesma forma que eu machuquei o Sean. E acho que teria feito isso, mas a Sam me viu e colocou o braço em meus ombros, como sempre faz. Ela me acalmou e fiquei contente de ela ter feito isso, porque acho que eu teria ficado ainda mais furioso se começasse a bater no Dave e sua garota tentasse me fazer parar porque gostava dele. Acho que eu teria ficado muito mais enfurecido com isso.
Então decidi fazer uma coisa melhor: esvaziar os pneus do carro do Dave. A Sam sabia onde o carro dele estava.
Eu tive uma sensação na sexta à noite, depois do jogo de ex-alunos, que não sei se serei capaz de descrever, a não ser que eu diga que foi ardente. Sam e Patrick me levaram de carro à festa naquela noite, e eu me sentei no meio na picape de Sam. Ela adora a picape, porque acho que o carro a fez se lembrar do pai. A sensação me aconteceu quando Sam disse a Patrick para encontrar alguma coisa no rádio. E ele só encontrava comerciais. E comerciais. E uma música de amor muito ruim que tinha a palavra “baby”. E depois mais comerciais. E por fim ele encontrou esta canção realmente maravilhosa sobre um cara, e nós ouvimos em silêncio.
Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:
“Eu me sinto infinito.”
E Sam e Patrick olharam para mim e disseram que foi a melhor coisa que já tinham ouvido. Porque a música era ótima e porque estávamos prestando muita atenção nela. Cinco minutos de toda uma vida tinham passado, e nós nos sentíamos jovens de uma forma legal. Eu cheguei a comprar o disco, e contaria a você como foi, mas na verdade não foi o mesmo que estar em um carro a caminho de sua primeira festa de verdade, e você está sentado no meio da picape com duas pessoas legais quando começa a chover.
Chegamos a casa onde a festa estava rolando e Patrick deu a batida secreta. É difícil descrever a batida sem fazer nenhum som. A porta se abriu um pouco e aquele cara com o cabelo crespo olhou pra nós.
― Patrick, vulgo Patty, vulgo Nada?
― Bob.
A porta se abriu e os velhos amigos se abraçaram. Depois, Sam e Bob se deram um abraço. E depois a Sam falou:
― Esse é nosso amigo, o Charlie.
E você não vai acreditar nisso. O Bob me abraçou! Sam me disse, quando estávamos pendurando os casacos, que o Bob era “doidão como um porra louca”. Eu tenho de contar isso, embora tenha um palavrão.
A festa acontecia no porão da casa. O porão estava enfumaçado e os garotos eram muito mais velhos. Havia duas meninas mostrando suas tatuagens uma à outra e usando piercings no umbigo. Veteranas, eu acho.
O cara chamado Fritz qualquer coisa estava comendo um monte de Twinkies. A namorada do Fritz falava com ele sobre os direitos das mulheres e ele só dizia “Eu sei, gata”.
Sam e Patrick começaram a fumar. Bob foi para a cozinha quando ouviu a campainha. Quando voltou, trouxe uma lata de cerveja Milwaukee Best para cada um e dois novos convidados da festa. Era a Maggie, que precisou usar o banheiro. E o Brad, oquarterback do time de futebol do segundo grau. Sem brincadeira!
Não sei por que isso me empolgou, mas acho que quando você vê alguém no corredor da escola ou no campo de futebol, ou em outro lugar assim, é legal saber que ele é uma pessoa real.
Todo mundo foi simpático comigo e me fez um monte de perguntas sobre minha vida. Acho que porque eu era o mais novo, e eles não queriam que eu ficasse deslocado, especialmente depois que eu disse que não queria uma cerveja. Uma vez bebi uma cerveja com o meu irmão, quando eu tinha doze anos, e não gostei nada. Para mim, era simples assim.
Algumas perguntas que me fizeram foram sobre em que ano eu estava e o que eu vou fazer quando crescer.
― Sou calouro e não sei bem ainda.
Olhei em volta e vi que Sam e Patrick tinham saído com o Brad. Foi quando Bob apareceu com comida.
― Quer um brownie?
― Quero. Obrigado.
Eu estava com muita fome, porque normalmente Sam e Patrick me levavam ao Big Boy depois dos jogos de futebol e acho que me acostumei com isso. Comi o brownie e o sabor era meio estranho, mas ainda era um brownie, então eu gostei. Mas não era um brownie comum. Quando você ficar mais velho, acho que vai entender que tipo de brownie era aquele.
Depois de meia hora, a sala começou a girar. Eu estava falando com uma das garotas com o piercing no umbigo e parecia que ela estava em um filme. Comecei a piscar muito, a olhar em volta e a música parecia pesada como água…
Sam voltou e, quando me viu, falou com o Bob:
― O que é que você fez?
― Para com isso, Sam. Ele gosta. Pergunte a ele.
― Como está se sentindo, Charlie?
― Leve.
― Tá vendo? ― Bob parecia um pouco nervoso, o que eu depois chamaria de paranoia.
Sam se sentou do meu lado e pegou minha mão, que estava fria.
― Está vendo alguma coisa, Charlie?
― Luz.
― Está se sentindo bem?
― Hum-hum.
― Está com sede?
― Hum-hum.
― O que você quer beber?
― Um milkshake.
E todo mundo na sala, exceto Sam, caiu na gargalhada.
― Ele tá chapado.
― Está com fome, Charlie?
― Hum-hum.
― O que você quer comer?
― Um milkshake.
Não sei se eles teriam rido ainda mais se eu tivesse dito que era tudo muito divertido. Depois Sam pegou minha mão e me ergueu naquele chão que girava.
― Vamos. Você vai tomar seu milkshake.
Quando estávamos saindo, Sam se virou para Bob.
― Eu ainda acho que você é um idiota.
Só o que Bob fez foi rir. E Sam acabou rindo também.
Eu fiquei contente, porque todo mundo parecia feliz.
Sam e eu fomos para a cozinha e ela acendeu a luz. Uau! Era tão brilhante, eu não podia acreditar. Era como se você visse um filme no cinema de dia e, quando sai do cinema, não consegue acreditar que ainda é dia do lado de fora. Sam pegou um pouco de sorvete, leite e o liquidificador. Eu perguntei a ela onde era o banheiro, e ela me apontou o canto quase como se fosse a casa dela. Acho que ela e Patrick passaram muito tempo ali quando Bob ainda estava no segundo grau.
Quando saí do banheiro, ouvi um barulho no quarto onde deixamos os casacos. Abri a porta e vi Patrick beijando o Brad. Foi um beijo meio roubado. Eles me ouviram na porta e se viraram. Patrick falou primeiro:
― É você, Charlie?
― Sam está fazendo um milkshake para mim.
― Quem é o garoto? ― Brad parecia muito nervoso, mas não como Bob.
― É um amigo meu. Relaxa.
Patrick então me tirou do quarto e fechou a porta. Colocou as mãos nos meus ombros e olhou direto nos meus olhos.
― Brad não quer que as pessoas saibam.
― Por quê?
― Porque ele está assustado.
― Por quê?
― Porque ele é… peraí… você está doidão?
― Eles disseram que eu estava chapado. A Sam está fazendo um milkshake.
Patrick tentou conter o riso.
― Olha, Charlie. O Brad não quer que as pessoas saibam. Preciso que você prometa que não vai contar a ninguém. Será nosso segredinho. Tá bom?
― Tá bom.
― Obrigado.
E com isso Patrick se virou e voltou para o quarto. Ouvi algumas vozes abafadas e Brad parecia chateado, mas não achei que fosse problema meu, então voltei para a cozinha.
Tenho de dizer que foi o melhor milkshake que já tomei na minha vida. Estava tão delicioso que quase me assustou.
Antes de sair da festa, Sam colocou algumas de suas canções favoritas para mim. Uma era chamada “Blackbird”. A outra era “MLK”. As duas eram muito bonitas. Mencionei os títulos porque elas também eram bons quando ouvi quando estava sóbrio.
Outra coisa interessante aconteceu na festa antes de nós sairmos. Patrick descia as escadas. Acho que Brad tinha ido embora. E Patrick sorria. E Bob começou a sacanear, dizendo que ele estava caído pelo quarterback. E Patrick sorriu ainda mais. Não acho que tenha visto o Patrick rir tanto. Depois Patrick apontou para mim e disse uma coisa ao Bob:
― Ele é uma figura, né?
Bob concordou. Patrick depois disse alguma coisa acho que nunca vou esquecer.
― Ele é invisível.
E Bob assentiu com a cabeça. E todos no porão fizeram o mesmo. E comecei a ficar nervoso como Bob, mas Patrick não me deixou ficar nervoso demais. Sentou-se do meu lado.
― Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende.
Não sei o que as outras pessoas estavam achando mim. Não sei o que elas pensavam. Eu estava sentado chão de um porão, na minha primeira festa de verdade entre Sam e Patrick, e lembro que Sam me apresentou como amigo a Bob. E lembro que Patrick fez a mesma coisa com o Brad. E comecei a chorar. E ninguém naquele porão me achava estranho por estar fazendo isso. E depois e comecei a chorar pra valer.
Bob ergueu seu drinque e pediu a todos que fizessem mesmo.
― A Charlie.
E todo o grupo disse: “A Charlie.”
Eu não sei por que eles fizeram aquilo, mas foi muito especial para mim. Particularmente a Sam. Especialmente ela.
Eu lhe contaria mais sobre o baile de ex-alunos, mas agora que estou pensando no assunto, ter esvaziado os pneus do carro de Dave foi a melhor parte. Eu tentei dançar como o Bill sugeriu, mas em geral gosto de músicas que não são para dançar, e então não danço muito bem. Sam estava muito bonita naquele vestido, mas eu estava tentando não prestar atenção porque me esforçava para não pensar daquele jeito.
Percebi que Brad e Patrick não se falaram durante o baile porque Brad estava dançando com uma líder de torcida chamada Nancy, que era a namorada dele. E percebi que minha irmã estava dançando com o cara que não era o cara que a havia apanhado em casa.
Depois do baile, nós fomos na picape de Sam. Desta vez foi o Patrick que dirigiu. Quando estávamos nos aproximando do túnel Fort Pitt, Sam pediu a Patrick para parar no acostamento. Não sei o que estava acontecendo. Sam então saltou para a traseira da picape, e usava só o vestido do baile, sem o casaco. Ela disse a Patrick para dirigir e ele abriu um sorriso. Acho que eles já tinham feito isso antes.
De qualquer forma, Patrick começou a acelerar o carro, e antes que chegássemos ao túnel, Sam se levantou e o vento transformou seu vestido em ondas do mar. Quando chegamos ao túnel, todo o som foi engolido num vácuo e substituído por uma música no toca-fitas. Uma linda canção chamada “Landslide”. Quando chegamos ao fim do túnel, Sam deu um grito muito divertido, e foi isso. Chegamos ao centro. As luzes nos prédios e todo o resto eram maravilhosos. Sam se sentou e começou a rir. Patrick também riu. Eu comecei a rir.
E naquele momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos.
Com amor,
Charlie.

Um comentário em “Livro On- As vantagens de ser invisível – Parte 1

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