Livro On – As vantagens de ser invisível – Parte 3

 
4 de janeiro de 1992
 
Querido amigo,
Desculpe pela última carta. Para dizer a verdade, eu não me lembro muito bem dela, mas sei, pelo modo como acordei, que não deve ter sido muito legal. Tudo de que me lembro do resto da noite foi ter procurado por toda a casa por um envelope e um selo. Quando finalmente encontrei, escrevi seu endereço e desci a colina até a agência dos Correios porque eu sabia que se não colocasse numa caixa de correio da qual não pudesse pegar de volta, a carta nunca seria enviada.
É estranho como aquilo pareceu importante na hora.
Depois que fui à agência dos Correios, coloquei a carta na caixa. E me senti completo. E calmo. Depois comecei a vomitar, e não parei de vomitar até que o sol nascesse. Olhei para a estrada e vi um monte de carros, e eu sabia que eles estavam indo para a casa de seus avós. E eu sabia que um monte deles veria o jogo de futebol do meu irmão mais tarde à noite. E minha mente ficou jogando amarelinha.
Meu irmão… futebol… Brad… Dave e a garota no meu quarto… os casacos… o frio… o inverno… “Folhas de Outono”… não conte a ninguém… seu pervertido… Sam e Craig… Sam… Natal… máquina de escrever… presente… tia Helen… e as árvores se mexendo… elas não paravam de se mover… então deitei e fiz um anjo de neve.
O policial me encontrou lívido e dormindo.
Não parei de tremer de frio por um bom tempo depois que minha mãe e meu pai me levaram de carro ao pronto-socorro. Ninguém ficou muito nervoso, porque essas coisas costumavam acontecer comigo quando eu era pequeno, quando estava indo ao médico. Eu vagava por aí e caía no sono em algum lugar. Todo mundo sabia que eu tinha ido a uma festa, mas ninguém, nem mesmo a minha irmã, achou que foi por causa disso. E eu mantive a boca fechada porque não queria que Sam e Patrick, ou Bob, ou qualquer pessoa, tivessem problemas. Mas, principalmente, eu não queria ver o rosto de minha mãe e especialmente o do meu pai se eles ouvissem a verdade de mim.
Então, não contei nada a ninguém.
Só fiquei quieto e olhei em volta. E percebi certas coisas. Os pontos no teto. Ou como o cobertor que me deram era áspero. Ou como o rosto do médico parecia de borracha. Ou como tudo era um sussurro ensurdecedor quando ele disse que talvez eu devesse começar a ver um psiquiatra novamente. Foi a primeira vez que um médico falou com meus pais na minha presença. E o jaleco dele era tão branco. E eu estava tão cansado.
Tudo em que consegui pensar durante o dia todo era que tínhamos perdido o jogo de futebol do meu irmão por minha causa, e esperei que minha irmã tivesse se lembrado de gravar.
Felizmente, ela gravou.
Voltamos para casa e minha mãe fez um chá para mim, e meu pai me perguntou se eu queria sentar e assistir ao jogo, e eu disse que sim. Vimos meu irmão fazer uma grande partida, mas dessa vez ninguém torceu muito. Todos os olhos estavam em cima de mim. E minha mãe disse um monte de palavras de estímulo sobre como eu estava indo bem na escola esse ano e que talvez o médico me ajudasse a colocar as coisas em ordem. Minha mãe pode ficar quieta e falar ao mesmo tempo quando está sendo positiva. Meu pai não parava de me dar “tapinhas carinhosos”. Os tapinhas carinhosos são soquinhos suaves de encorajamento que são dados no joelho, nos ombros e no braço. Minha irmã disse que pode me ajudar a ajeitar o cabelo. Era estranho ver os três dando muita atenção a mim.
― Que quer dizer com isso? O que há de errado com meu cabelo?
Minha irmã ficou olhando, pouco à vontade. Levei as mãos ao cabelo e percebi que boa parte dele se fora. Sinceramente não me lembro de quando fiz isso, mas, a julgar pela aparência do meu cabelo, eu devo ter pego uma tesoura e começado a cortar sem nenhuma estratégia. Faltavam grandes chumaços em toda parte. Como o corte de um açougueiro. Não me olhei no espelho na festa por muito tempo porque meu rosto estava diferente e lutava contra mim. Ou eu teria percebido.
Minha irmã me ajudou a arrumá-lo um pouco e eu tive sorte, porque todos na escola, inclusive Sam e Patrick, acharam que estava legal.
“Chique” foi o que disse o Patrick.
Apesar disso, decidi nunca mais tomar LSD.
Com amor,
Charlie.
 

 
14 de janeiro de 1992
 
Querido amigo,
Estou me sentindo um grande impostor porque deixei toda a minha vida para trás e ninguém sabe disso. É difícil sentar na minha cama e ler como eu sempre fiz. É difícil até falar com meu irmão ao telefone. O time dele terminou em terceiro no nacional. Ninguém contou a ele que nós não vimos o jogo por minha causa.
Fui à biblioteca e procurei por um livro, porque estava assustado. De vez em quando as coisas começam a se mexer novamente e os sons ficam graves e surdos. E eu não consigo colocar os pensamentos em ordem. O livro dizia que às vezes as pessoas tomam LSD e não conseguem sair realmente dele. Ele diz que o LSD aumenta um tipo de transmissor cerebral. Diz que a droga corresponde essencialmente a doze horas de esquizofrenia; se você já tem muito desse transmissor cerebral, não consegue sair dessa.
Comecei a respirar mais rápido na biblioteca. Foi muito ruim, porque me lembrei de algumas crianças esquizofrênicas no hospital quando eu era pequeno. E o pior é que foi um dia depois de eu ter percebido que todos os garotos estavam usando suas roupas novas de Natal, então decidi vestir meu novo terno que Patrick me deu para ir à escola, e caçoaram de mim por nove horas seguidas. Foi um daqueles dias ruins. Matei a primeira aula e fui procurar Sam e Patrick do lado de fora.
― Tá elegante, Charlie ― disse Patrick, sorrindo.
― Pode me dar um cigarro? ― eu disse.
Não conseguia ver a mim mesmo dizendo “filar um cigarro”. Não na primeira vez. Eu não consegui.
― Claro ― Patrick respondeu.
Sam o deteve.
― O que foi, Charlie?
Contei a ela o que havia de errado, o que levou Patrick a ficar me perguntando se foi uma “viagem ruim”.
― Não, não. Não é isso.
Eu estava ficando bem perturbado.
Sam colocou o braço em torno dos meus ombros e disse que sabia o que tinha acontecido comigo. Disse para eu não me preocupar com isso. Depois que você faz isso, você se lembra de como as coisas se parecem. É só isso. É como uma estrada que fica cheia de curvas. E como seu rosto era de plástico e seus olhos têm tamanhos diferentes. Tudo está na sua cabeça.
Depois disso ela me deu um cigarro.
Não tossi quando traguei. Ele me acalmou. Aprendi que fazia mal em uma aula, mas não era verdade.
― Agora concentre-se na fumaça ― disse Sam.
E eu me concentrei na fumaça.
― Agora parece normal, não é?
― Hum-hum ― Acho que foi o que eu disse.
― Agora olhe para o piso do pátio. Ele está se mexendo?
― Hum-hum.
― Muito bem… Agora concentre-se na folha de papel que está ali no chão.
E eu me concentrei na folha de papel que estava no chão.
― O piso está se movendo agora?
― Não, não está.
A partir de agora, para que você se sinta bem, para que você nunca mais tome ácido de novo, Sam passou a explicar o que ela chamava de “o êxtase”. O êxtase acontece quando você não focaliza nada e todo o ambiente desaparece e se move em volta de você. Ela disse que isso era em geral metafórico, mas, para as pessoas que nunca devem tomar ácido, era real.
Foi aí que eu comecei a rir. Estava bastante aliviado. E Sam e Patrick sorriram. Fiquei contente de eles sorrirem também, porque eu não estava suportando a cara de preocupação deles.
As coisas pararam de se mover na maior parte do tempo desde então. Não matei a outra aula. E acho agora que não me sinto como um grande impostor por tentar deixar minha vida para trás. Bill achou meu trabalho sobre O apanhador no campo de centeio (que escrevi em minha nova máquina de escrever antiga!) o melhor que já fiz. Ele disse que eu estava me “desenvolvendo” em um ritmo rápido e me deu um livro diferente como uma “recompensa”. É Pé na estrada, de Jack Kerouac.
Agora fumo mais de dez cigarros por dia.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
25 de janeiro de 1992
 
Querido amigo,
Estou me sentindo ótimo! De verdade. Tenho de me lembrar disso na próxima vez em que tiver uma semana ruim. Já aconteceu com você? Já se sentiu muito mal, depois tudo passar e você não saber por quê? Eu tento me lembrar, quando me sinto ótimo como agora, que haverá outra semana terrível algum dia, então procuro guardar o maior número de detalhes que posso, e assim, na próxima semana terrível, vou poder lembrar esses detalhes e acreditar que vou me sentir bem novamente. Não funciona muito, mas acho muito importante tentar.
Meu psiquiatra é um cara muito legal. É muito melhor do que meu último psiquiatra. Conversamos sobre coisas que eu sinto, penso e me lembro. Como quando eu era pequeno, e aquela época em que andei pela rua no meu bairro. Eu estava completamente nu, segurando um guarda-chuva azul brilhante, embora não estivesse chovendo. E estava tão feliz, porque isso fez minha mãe sorrir. E ela raramente sorria. Então, ela tirou uma foto. E os vizinhos reclamaram.
Da outra vez, eu vi um comercial de um filme sobre um homem que fora acusado de assassinato, mas não havia cometido crime nenhum. Um cara do M*A*S*H era o astro do filme. Provavelmente por isso que eu me lembro dele. O trailer dizia que durante todo o filme ele tentava provar sua inocência, e que ele foi para a cadeia, apesar disso. Fiquei muito assustado. Fiquei assustado com o quanto aquilo me assustou. Ser punido por uma coisa que você não fez. Ser uma vítima inocente. Não quero passar por isso nunca.
Não sei se é importante contar tudo isso a você, mas, na época, achei que foi uma “ruptura”. O melhor em meu psiquiatra é que ele tem revistas de música na sala de espera. Li um artigo sobre o Nirvana em uma das consultas, e não havia nenhuma referência a molho de mostarda ou alfaces. Eles ficaram falando dos problemas de estômago do cantor o tempo todo, apesar disso. Era estranho.
Como eu contei a você, Sam e Patrick adoravam sua nova canção, então acho que li o artigo para ter o que conversar com eles. No fim, a revista o comparava a John Lennon, dos Beatles. Contei isso a Sam mais tarde e ela ficou muito irritada. Disse que ele era como Jim Morrison, se fosse parecido com alguém, mas na verdade não era parecido com ninguém, somente consigo mesmo. Estávamos no Big Boy depois doRocky Horror e começou uma baita discussão.
Craig disse que o problema com as coisas é que todo mundo sempre está comparando todos a todo mundo, e que por causa disso ele não acreditava nas pessoas, como em suas aulas de fotografia.
Bob disse que tudo isso era porque nossos pais não querem que a gente cresça e que eles ficam mortificados quando não podem nos comparar a alguma coisa.
Patrick disse que o problema era que, como tudo já tinha acontecido, era difícil explorar novos terrenos. Ninguém pode ser tão grande como os Beatles porque os Beatles já criaram um “contexto”. O motivo de eles serem tão grandes era que não tinham ninguém a quem se comparar, então o céu era o limite.
Sam acrescentou que hoje em dia uma banda ou alguém se compararia aos Beatles depois do segundo disco, e sua própria voz naquele momento se perderia.
― O que você acha, Charlie?
Não me lembro de onde ouvi ou li isso. Disse que talvez fosse de Este lado do paraíso, de F. Scott Fitzgerald. Em algum ponto perto do fim do livro, o protagonista é apanhado por um homem mais velho. Os dois estão indo para a partida de futebol da Ivy League e têm essa discussão. O mais velho é estabelecido. O garoto está “esgotado”.
De qualquer modo, eles têm uma discussão e o garoto é um idealista, pelo menos temporariamente. Ele fala de sua “geração insatisfeita” e coisas assim. E ele diz algo parecido com: “Não é uma época de heróis, porque ninguém deixará que isso aconteça.” O livro se passa na década de 1920, que eu acho que foi ótima, porque imagino que o mesmo tipo de diálogo pode acontecer no Big Boy. Provavelmente aconteceu com meus pais e avós. Provavelmente estava acontecendo bem agora.
Então eu disse que achava que a revista estava tentando transformá-lo num herói, mas depois alguém descobriria alguma coisa que o tornaria inferior a um ser humano. E eu não sei por quê; para mim, ele é só um cara que escreve canções que muita gente gosta, e acho que isso era o bastante. Talvez eu esteja errado, mas todos na mesa começaram a falar nisso.
Sam culpou a televisão. Patrick culpou o governo. Craig culpou a “mídia corporativa”. Bob estava no banheiro.
Não sei o que foi e não sei se acompanhei alguma coisa, mas me senti ótimo sentado ali conversando sobre nosso lugar nas coisas.
Foi igual a quando Bill me disse para “participar”. Fui ao baile de ex-alunos, como já lhe contei antes, mas isso era muito mais divertido. Foi especialmente divertido pensar que as pessoas em todo o mundo estavam tendo conversas parecidas em seus equivalentes de Big Boy.
Eu teria dito isso na mesa, mas eles estavam se divertindo sendo cínicos e eu não queria estragar isso. Então, recuei um pouco na cadeira e observei Sam sentada perto do Craig, e tentei não ficar muito triste com aquilo. Tenho de dizer que não tive muito sucesso. Mas, a certa altura, Craig estava falando de algo, e Sam se voltou para mim e sorriu. Foi um sorriso de cinema em câmera lenta, e então tudo ficou bem.
Disse isso a meu psiquiatra, mas ele disse que era cedo demais para tirar conclusões.
Não sei. Só sei que tive um ótimo dia. Espero que você também.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
2 de fevereiro de 1992
 
Querido amigo,
Pé na estrada era um livro muito bom. Bill não me pediu para escrever um trabalho sobre ele porque, como eu disse, era “uma recompensa”. Ele me pediu para visitá-lo em sua sala depois da aula para discutir o livro, e foi o que eu fiz. Ele fez chá, e eu me senti um adulto. Ele até me deixou fumar um cigarro na sala dele, mas me aconselhou a parar de fumar por causa dos riscos para a saúde. Até tinha um folheto na mesa dele, que me deu. Agora uso como marcador de livro.
Achei que Bill e eu íamos conversar sobre o livro, mas terminamos falando de “coisas”. Foi ótimo ter tantas discussões. Bill me perguntou sobre Sam e Patrick e meus pais, e eu contei a ele sobre minha carteira de motorista e a conversa no Big Boy. Também contei a ele sobre meu psiquiatra. Mas não falei da festa ou de minha irmã e o namorado. Eles ainda estavam se vendo em segredo, o que minha irmã diz que só “inflamava a paixão”.
Depois que falei a Bill de minha vida, pedi que ele falasse da dele. Foi legal também, porque ele não tentou ser legal e se relacionar comigo ou coisa assim. Ele estava sendo ele mesmo. Disse que fez a graduação em uma faculdade do Oeste que não dava notas, o que achei peculiar, mas Bill disse que foi a melhor educação que ele teve. Ele disse que me daria um prospecto de lá quando chegasse a minha hora.
Depois que foi para a Brown University, para a pós-graduação, Bill viajou pela Europa durante algum tempo, e, quando voltou para casa, se filiou ao Teach for America. Quando este ano acabar, ele acha que irá para Nova York e escreverá peças de teatro. Acho que ele ainda é muito novo, embora eu pense que seria rude dizer isso a ele. Perguntei se ele tinha namorada e ele disse que não. Ele pareceu triste ao dizer aquilo, também, mas decidi não me intrometer porque achei que seria muito inconveniente. Depois ele me deu outro livro para ler. Chamava-se Naked Lunch.
Comecei a ler quando cheguei em casa e, para dizer a verdade, não sei do que o cara está falando. Nunca disse isso ao Bill. Sam me disse que William S. Burroughs escreveu o livro quando usava heroína e que eu devia “seguir o fluxo”. Então foi o que eu fiz. Ainda não tenho a menor ideia do que ele estava falando, e então desci as escadas para ver televisão com minha irmã.
O programa era Gomer Pyle e minha irmã estava muito quieta e mal-humorada. Tentei conversar com ela, mas ela me disse para calar a boca e deixá-la em paz. Então assisti ao programa por alguns minutos, mas fazia ainda menos sentido para mim do que o livro e decidi fazer meu dever de casa de matemática, o que foi um erro, porque matemática nunca fez sentido para mim.
Fiquei confuso o dia todo.
Então tentei ajudar minha mãe na cozinha, mas deixei cair uma panela e ela me disse para ir ler em meu quarto até meu pai chegar, mas foi a leitura que tinha começado com toda aquela confusão. Por sorte, meu pai chegou em casa antes que eu pegasse o livro de novo, mas ele me disse para parar de “me aboletar nos ombros dele como um macaco” porque ele queria ver o jogo de hóquei. Vi o jogo com ele por algum tempo, mas não conseguia parar de fazer perguntas sobre os países de origem dos jogadores, e ele estava “descansando os olhos”, o que significa que estava dormindo, mas não queria me deixar mudar o canal. Então me disse para ver televisão com minha irmã, o que eu fiz, mas ela me disse para ajudar minha mãe na cozinha, o que eu fiz, mas ela me disse para ler em meu quarto. E foi o que eu fiz.
Já li cerca de um terço do livro e até agora está muito bom.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
8 de fevereiro de 1992
 
Querido amigo,
Tenho um encontro numa festa Sadie Hawkins. Caso você não saiba dessas coisas, é uma festa em que as garotas convidam os garotos. No meu caso, a garota é Mary Elizabeth, e o garoto sou eu. Dá para acreditar nisso?
Acho que começou quando eu estava ajudando Mary Elizabeth a grampear a última edição de Punk Rocky na sexta-feira, antes de irmos ao Rocky Horror Picture Show. Mary Elizabeth estava muito legal naquele dia. Ela disse que foi a melhor edição que já fizera por duas razões, e as duas razões tinham a ver comigo.
Primeira, era em cores, e, segunda, tinha o poema que eu dei a Patrick.
Foi realmente uma grande edição. Acho que vou pensar muito nela quando estiver mais velho. Craig incluiu algumas fotografias em cores. Sam incluiu algumas notícias “underground” sobre algumas bandas. Mary Elizabeth escreveu um artigo sobre os candidatos democratas. Bob incluiu uma cópia de um panfleto pró-maconha. E Patrick fez aquele falso folheto de propaganda anunciando um “boquete” grátis para qualquer um que comprasse um Smiley Cookie no Big Boy. Advertência: há restrições!
Havia um nu fotográfico (de costas) de Patrick, se dá para você acreditar nisso. Sam e Craig tiraram a foto. Mary Elizabeth disse a todos para guardar segredo de que a foto era do Patrick, o que todos fizeram, exceto Patrick.
Toda noite ele gritava “Mostre, baby! Mostre”, que era sua fala favorita do filme favorito dele, Os produtores.
Mary Elizabeth me disse que ela achava que Patrick tinha pedido para colocar a foto na edição para que Brad pudesse ter uma foto dele sem despertar suspeitas, mas ele não confirmaria isso. Brad comprou um exemplar sem nem mesmo abrir, então talvez ela tivesse razão.
Quando fui para o Rocky Horror Picture Show naquela noite, Mary Elizabeth estava muito irritada porque Craig não tinha aparecido. Ninguém sabia por quê. Nem mesmo a Sam. O problema é que não havia ninguém para fazer o papel de Rocky, o robô muscular (não sei bem o que é isso). Depois de procurar por alguém, Mary Elizabeth se virou para mim.
― Charlie há quanto tempo você vê esse show?
― Dez meses.
― Você acha que pode fazer o Rocky?
― Eu não sou atraente e bem-talhado.
― Isso não importa. Pode fazer o papel?
― Acho que sim.
― Acha que sim ou sabe que sim?
― Acho que sim.
― Isso é o bastante.
De repente, pelo que me lembro, eu estava vestindo somente chinelos e um traje de banho, que alguém tinha pintado de dourado. Não sei como essas coisas às vezes acontecem comigo. Fiquei muito nervoso, especialmente porque, no show, Rocky tem que tocar todo o corpo de Janet, e quem fazia Janet era a Sam. Patrick ficou fazendo piada de que eu teria uma “ereção”. Eu torcia para que isso não acontecesse. Uma vez, tive uma ereção em aula e tive de ir ao quadro-negro. Foi um momento terrível. E quando minha mente considerou essa experiência e acrescentou um refletor e o fato de que eu estava usando só um calção de banho, entrei em pânico. Quase não fiz o show, mas então Sam me disse que ela queria muito que eu fizesse Rocky, e acho que era tudo que eu precisava ouvir.
Não vou entrar em detalhes sobre todo o show, mas foi o melhor momento que tive em toda minha vida. Não estou brincando. Eu tinha de fingir que estava cantando, e dançando, e usava uma “jiboia de couro” no final, e não tive de pensar nisso porque era parte do show, mas Patrick não parou de falar no assunto. “Charlie com uma jiboia de couro! Charlie com uma jiboia de couro!” Ele não conseguia parar de rir.
Mas a melhor parte foi a cena com Janet, em que tínhamos de nos tocar. Não foi a melhor parte só porque eu tive de tocar na Sam e ela em mim. Foi exatamente o contrário. Eu sei que parece uma estupidez, mas é verdade. Um pouco antes da cena, pensei na Sam e pensei que, se eu tocasse nela daquele jeito no palco de propósito, seria vulgar. E no que me diz respeito, acho que se um dia tocar nela de alguma forma nunca vou querer que seja vulgar. Não ia querer ser Rocky e Janet. Ia querer que fosse Sam e eu. E eu queria que fosse recíproco. Então, eu só representei.
Quando o show terminou, todos nós nos curvamos e os aplausos vinham de toda parte. Patrick chegou a me colocar na frente do restante do elenco para eu receber meus próprios aplausos. Acho que era a iniciação para os novos membros do elenco. Tudo o que pude pensar foi como foi legal que todos me aplaudissem e como eu estava contente que ninguém da minha família estivesse ali para me ver de Rocky com uma jiboia de couro. Especialmente meu pai.
Tive uma ereção, apesar de tudo, mas só mais tarde, no estacionamento do Big Boy.
Foi quando Mary Elizabeth me convidou para a festa Sadie Hawkins e disse depois: “Você ficou muito bem naqueles trajes.”
Eu gosto de garotas. Gosto mesmo. Porque elas acham que você fica bem de calção de banho mesmo quando você não está. A ereção fez com que eu me sentisse culpado por antecipação, mas acho que não podia ter evitado.
Contei à minha irmã sobre o encontro na festa, mas ela estava muito distraída. Depois tentei pedir seu conselho sobre como tratar uma garota em um encontro, porque nunca tive um encontro antes, mas ela não respondeu. Ela não estava sendo cruel. Só estava “olhando para o vazio”. Perguntei a ela se estava tudo bem, e ela disse que precisava ficar sozinha, então subi e terminei de ler Naked Lunch.
Depois que terminei, fiquei deitado na cama olhando para o teto e sorri, porque o silêncio era muito legal.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
9 de fevereiro de 1992
 
Querido amigo,
Tenho de dizer uma coisa sobre minha última carta. Eu sei que Sam nunca me convidaria para dançar. Sei que ela traria Craig, e se não fosse Craig, então o Patrick, porque a namorada de Brad, Nancy, foi com Brad. Acho que Mary Elizabeth é muito esperta e uma pessoa legal, e estou feliz que ela seja meu primeiro encontro. Mas depois que disse sim, e Mary Elizabeth anunciou isso ao grupo, eu queria que Sam ficasse com ciúmes. Sei que é errado querer uma coisa assim, mas eu realmente queria.
Mas Sam não ficou com ciúmes. Para dizer a verdade, acho que ela não poderia ter ficado mais feliz, o que foi duro. Ela chegou a me dizer como tratar uma garota em um encontro, o que foi muito interessante. Ela disse que, com uma garota como Mary Elizabeth, você não deve dizer que ela está bonita. Deve dizer a ela como sua roupa é legal, porque a roupa é uma escolha dela, enquanto o rosto não é. Ela também disse que, com algumas garotas, você deve fazer coisas, como abrir a porta do carro e comprar flores, mas com Mary Elizabeth (especialmente em sua festa Sadie Hawkins), eu não devia fazer isso. Então perguntei a ela o que devia fazer e ela disse que eu devia fazer um monte de perguntas e não me importar se Mary Elizabeth não parasse de falar. Eu disse que isso não parecia muito democrático, mas Sam falou que ela faz isso o tempo todo com os garotos.
Sam disse que as coisas sexuais eram complicadas com a Mary Elizabeth, porque ela teve namorados antes e é muito mais experiente do que eu. Ela disse que a melhor coisa a fazer quando eu não souber como agir durante qualquer coisa sexual é prestar atenção em como a pessoa está te beijando e beijá-la da mesma maneira. Ela disse que isso é muito sensato, e eu certamente quero ser.
― Você pode mostrar para mim? ― perguntei.
E ela respondeu:
― Não banque o espertinho.
Conversamos como às vezes fazemos. Isso sempre me faz rir. Depois que Sam me mostrou um isqueiro Zippo, eu perguntei mais sobre Mary Elizabeth.
― E se eu não quiser fazer nada de sexual com ela?
― Diga apenas que não está pronto.
― E isso funciona?
― Às vezes.
Eu queria perguntar a Sam sobre o outro lado de “às vezes”, mas não queria ser muito inconveniente e não queria saber com tanta profundidade assim. Gostaria de deixar de ser apaixonado pela Sam. Eu gostaria muito.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
15 de fevereiro de 1992
 
Querido amigo,
Não me sinto muito bem, porque tudo está muito confuso. Fui à festa e disse a Mary Elizabeth como a roupa dela era legal. Fiz perguntas a ela e deixei que ela falasse o tempo todo. Aprendi muito sobre “objetificação”, índios americanos e burguesia.
Mas, acima de tudo, aprendi sobre Mary Elizabeth. Mary Elizabeth quer ir para Berkeley e ter dois diplomas. Um em ciência política. O outro em sociologia com uma pequena especialização em estudos femininos. Mary Elizabeth odeia a escola secundária e quer explorar relacionamentos lésbicos. Perguntei se ela achava as garotas bonitas, e ela olhou para mim como se eu fosse idiota e disse: “A questão não é essa.”
O filme favorito de Mary Elizabeth é Reds. O livro favorito é uma autobiografia de uma mulher que foi personagem de Reds. Não consigo me lembrar do nome dela. A cor favorita de Mary Elizabeth é o verde. A estação favorita é a primavera. O sorvete favorito (ela disse que se recusa a comer frozen yogurt de baixa caloria por uma questão de princípios) é de cereja. A comida favorita é pizza (metade champignon, metade pimenta-verde). Mary Elizabeth é vegetariana e odeia os pais. Ela fala espanhol fluentemente.
A única coisa que ela me perguntou durante todo o tempo foi se eu queria ou não dar um beijo de boa-noite nela. Quando eu disse que não estava pronto, ela disse que entendia e me falou dos bons tempos que teve. Ela disse que eu era o cara mais sensível com quem ela já saíra, o que não entendi, porque só o que eu fiz foi não interrompê-la.
Depois ela me perguntou se eu queria sair com ela novamente algum dia, o que Sam e eu não cogitamos, então eu não sabia o que responder. Eu disse que sim, porque não queria fazer nada errado, mas não acho que consiga bolar perguntas boas por mais uma noite. Não sei o que fazer. Quantos encontros você pode ter e não estar pronto ainda para beijar? Não acho que um dia estarei pronto para Mary Elizabeth. Tenho de conversar com a Sam sobre isso.
Aliás, Sam levou Patrick para a festa depois que Craig disse que estava muito ocupado. Acho que eles brigaram um bocado por causa disso. No fim, Craig disse que não ia a uma festa idiota de segundo grau desde que tinha se formado. A certa altura na festa, Patrick foi para o estacionamento para ficar chapado com o orientador educacional, e Mary Elizabeth pedia que o DJ tocasse algumas bandas de garotas, o que me deixou a sós com Sam.
― Está se divertindo?
Sam não respondeu de imediato. Parecia meio triste.
― Não muito. E você?
― Não sei. É meu primeiro encontro, então não sei com o que comparar.
― Não se preocupe. Você vai se sair bem.
― Mesmo?
― Você quer ponche?
― Claro.
Com isso, Sam saiu. Ela parecia mesmo triste e eu queria poder fazer com que ela se sentisse melhor, mas às vezes acho que não se deve. Assim, fiquei sozinho perto da parede e observei a dança por algum tempo. Eu a descreveria para você, mas acho que é o tipo de coisa que você tem de presenciar, ou pelo menos conhecer as pessoas. Mas então eu penso que talvez você conheça as mesmas pessoas, de quando foi às festas da sua escola, se entende o que quero dizer.
A única coisa diferente nesta festa em particular era minha irmã. Ela estava com o namorado. E, durante uma música lenta, parece que eles tiveram uma briga feia, porque ele parou de olhar para ela e ela correu para a área dos banheiros. Tentei acompanhá-la, mas ela estava muito à minha frente. Não voltou mais para o salão e o namorado acabou indo embora.
Depois que Mary Elizabeth me deixou em casa, entrei e encontrei minha irmã chorando no porão. Era um choro meio diferente. Do tipo que me assustava. Falei bem mansinho e lentamente:
― Você está bem?
― Me deixa em paz, Charlie.
― É sério. Qual é o problema?
― Você não entenderia.
― Eu posso tentar.
― Que piada. É mesmo uma piada.
― Quer que eu acorde mamãe e papai?
― Não.
― Bom, talvez eu possa…
― CHARLIE! CALE A BOCA! TÁ BOM? CALE A BOCA!
Foi quando ela começou a chorar de verdade. Eu não queria que ela se sentisse pior, então me virei para deixá-la sozinha. Foi quando minha irmã começou a me abraçar. Ela não disse nada. Só ficou abraçada comigo e eu não pude sair. Então eu a abracei também.
Foi estranho porque eu nunca havia abraçado minha irmã. Não quando ela não era obrigada a fazer isso. Depois de algum tempo, ela se acalmou um pouco e me largou. Respirou profundamente e ajeitou o cabelo que estava caído no rosto.
Foi aí que ela me disse que estava grávida.
Eu lhe contaria sobre o resto da noite, mas sinceramente não me lembro muito bem. Foi tudo muito atordoante. Sei que o namorado dela disse que o bebê não era dele, mas minha irmã sabia que era. E sei que ele rompeu com ela bem naquela festa. Minha irmã não contou a ninguém sobre isso porque ela não quer que o assunto se espalhe. As únicas pessoas que sabem somos eu, ela e ele. Não tenho permissão para contar a ninguém que eu conheça. Ninguém. Nunca.
Disse à minha irmã que ia chegar a hora em que ela não ia mais conseguir esconder, mas ela disse que não permitiria que fosse tão longe. Como já tinha dezoito anos, não precisava da permissão da mamãe e do papai. Tudo de que ela precisava era de alguém que fosse com ela à clínica no sábado. E essa pessoa era eu.
― Ainda bem que já tenho minha carteira de motorista.
Eu disse isso para fazer ela rir. Mas ela não riu.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
23 de fevereiro de 1992
 
Querido amigo,
Eu estava sentado na sala de espera da clínica. Fiquei ali por uma hora ou mais. Não me lembro exatamente quanto tempo. Bill tinha me dado outro livro para ler, mas eu não conseguia me concentrar nele. Acho que você pode entender por quê.
Então tentei ler algumas revistas, mas de novo não consegui. Não foi tanto porque eles mencionavam o que as pessoas comiam. Foram todas as capas das revistas. Cada uma delas tinha uma face sorridente, e toda vez que tinha uma mulher na capa, ela estava mostrando o colo dos seios. Eu me perguntei se aquelas mulheres faziam isso para parecerem bonitas ou se era parte do trabalho delas. Eu me perguntei se elas tinham opção ou não, se queriam ser bem- sucedidas. Não consegui me livrar dessa ideia.
Quase pude ver a sessão de fotos e a atriz ou modelo indo comer um “lanche leve” com o namorado depois. Pude vê-lo perguntando a ela sobre o dia, e que ela não havia pensado muito nisso, ou talvez, se fosse a primeira capa de revista, como estaria empolgada porque estava começando a ficar famosa. Pude ver a revista nas bancas e um monte de olhos anônimos olhando para ela, e como as pessoas pensariam que era importante. E depois como uma garota como Mary Elizabeth ficaria com raiva com a atriz ou modelo mostrando a parte de cima dos seios junto com outras atrizes e modelos fazendo a mesma coisa, enquanto algum fotógrafo como Craig veria apenas a qualidade das fotografias. Então pensei que haveria alguns homens que comprariam a revista e se masturbariam com ela. E me perguntei o que a atriz ou o namorado dela pensava disso, se pensava alguma coisa. E depois eu pensei que já era hora de eu parar de pensar porque não estava fazendo nenhum bem à minha irmã.
Foi aí que eu comecei a pensar na minha irmã.
Pensei na vez em que ela e as amigas pintaram as minhas unhas, e em como estava tudo bem, porque meu irmão não estava lá. E na vez em que ela me deixou usar as bonecas para brincar de teatro e me deixou assistir ao que eu queria na tevê. E quando ela começou a se transformar em uma “jovem mulher” e ninguém podia olhar para ela porque se achava gorda. E que na verdade ela não estava gorda. E como ela era mesmo muito bonita. E como seu rosto parecia diferente quando ela percebia que os rapazes a achavam bonita. E como seu rosto ficou diferente quando ela gostou pela primeira vez de um cara que não estava em um pôster na parede do quarto. E como ficou seu rosto quando ela percebeu que estava apaixonada por aquele cara. E então me perguntei como seu rosto estaria quando ela saísse de trás daquelas portas.
Minha irmã foi a única que me contou de onde vinham os bebês. Minha irmã também foi a única pessoa que riu quando eu imediatamente perguntei a ela para onde os bebês iam.
Quando pensei nisso, comecei a chorar. Mas não deixei que ninguém visse, porque, se deixasse, eles podiam me impedir de levá-la para casa, e podiam ligar para meus pais. E eu não podia deixar que isso acontecesse porque minha irmã estava contando comigo, e foi a primeira vez que alguém precisou de mim para alguma coisa. Quando percebi que foi a primeira vez que chorava desde que tinha prometido à tia Helen não chorar, a não ser que fosse por uma coisa importante, tive de sair um pouco, porque não consegui mais esconder o choro.
Devo ter ficado no carro por um bom tempo, porque minha irmã acabou me encontrando ali. Eu fumava um cigarro e ainda chorava. Minha irmã bateu na janela. Eu abri. Ela olhou para mim com uma expressão curiosa. Depois sua curiosidade se transformou em raiva.
― Charlie, você está fumando?!
Ela ficou tão irritada. Não posso lhe contar como ela estava furiosa.
― Não é possível que você esteja fumando!
Foi aí que eu parei de chorar. E comecei a rir. Porque, de todas as coisas que ela poderia dizer logo após ter saído de lá, ela escolheu meu cigarro. E ela ficou enfurecida com isso. E eu sabia que, se minha irmã ficasse enfurecida, seu rosto não ficaria diferente. E ela estaria bem.
― Vou contar a mamãe e papai, ouviu?
― Não vai não.
Meu Deus, eu não conseguia parar de rir.
Quando minha irmã refletiu por um segundo, acho que ela entendeu por que não contaria a meus pais. Foi quando ela de repente se lembrou de onde nós estávamos, do que tinha acontecido e de como aquela conversa era maluca, considerando tudo isso. Depois ela começou a rir.
Mas o riso a fez se sentir mal, então eu tive de sair do carro e ajudá-la a sentar no banco. Eu já havia arrumado o travesseiro e o cobertor para ela porque imaginei que provavelmente seria melhor dormir um pouco no carro antes de ir para casa.
Pouco antes de pegar no sono, ela disse:
― Bom, se você vai fumar, pelo menos abra a janela.
O que me fez começar a rir de novo.
― Charlie fumando. Não é possível.
O que me fez rir ainda mais, e eu disse:
― Eu te adoro.
― Eu te adoro também. Mas pare com essa risadaria agora.
Por fim, meu riso se transformou em um risinho ocasional e depois parou. Olhei para trás e vi que minha irmã estava dormindo. Então, girei a chave na ignição e liguei o aquecedor para que ela não sentisse frio. Depois comecei a ler o livro que o Bill me deu. Era Walden, de Henry David Thoreau, o livro favorito da namorada do meu irmão, então fiquei muito animado para ler.
Quando o sol se pôs, coloquei meu folheto sobre cigarros na página em que havia parado e fui para casa. Parei a algumas quadras de nossa casa para acordar minha irmã e colocar o travesseiro e o cobertor no porta-malas. Chegamos em casa. Descemos do carro. Entramos. E ouvimos as vozes de minha mãe e de meu pai do alto das escadas:
― Onde foi que vocês passaram o dia todo?
― É isso mesmo. O jantar está quase pronto.
Minha irmã olhou para mim. Eu olhei para ela. Ela encolheu os ombros. Então comecei a falar disparado que vimos um filme e que minha irmã me ensinou a dirigir na via expressa e que fomos ao McDonald’s.
― McDonald’s? Quando!?
― Sua mãe fez costeletas, sabia?
Meu pai estava lendo o jornal.
Enquanto eu falava, minha irmã se dirigiu a meu pai e lhe deu um beijo na bochecha. Ele não tirou os olhos do jornal.
― Eu sei, mas fomos ao McDonald’s antes do cinema, então já tem algum tempo.
Depois meu pai disse sem muito interesse:
― Que filme vocês viram?
Eu gelei, mas minha irmã saiu com o nome de um filme antes de beijar minha mãe no rosto. Nunca tinha ouvido falar daquele filme.
― Foi bom?
Eu gelei de novo.
Minha irmã estava tão calma.
― Foi legal. O cheiro das costeletas está ótimo.
― É ― concordei. Depois pensei em alguma coisa para mudar de assunto. ― Ei, pai, hoje tem hóquei?
― Tem, mas você não vai poder ver comigo se ficar fazendo perguntas idiotas.
― Tudo bem, mas podia perguntar uma coisa antes que comece?
― Não sei. Será que pode?
― Posso?
― Vá em frente ― ele resmungou.
― Como é que os jogadores chamam o disco de hóquei mesmo?
― Bolacha. Eles chamam de bolacha.
― Isso. Obrigado.
Daquele momento até a hora do jantar, meus pais não fizeram mais nenhuma pergunta a respeito do dia, embora minha mãe tenha dito que ficou muito feliz de ver minha irmã e eu passando mais tempo juntos.
Naquela noite, depois que meus pais foram dormir, desci até o carro e peguei o travesseiro e o cobertor no porta-malas. Levei para o quarto da minha irmã. Ela estava muito cansada. E falava com muita suavidade. Então me agradeceu por todo o dia. Disse que eu não a desapontei. E disse que queria que fosse nosso segredinho, e que tinha decidido dizer ao ex-namorado que a gravidez foi um alarme falso. Acho que ela nunca chegou a contar a verdade a ele.
Logo depois que apaguei a luz e abri a porta, ouvi sua voz, baixinha:
― Quero que você pare de fumar, viu?
― Tá bom.
― Porque eu amo você de verdade, Charlie.
― Eu também amo você.
― É sério.
― Eu também.
― Está bem, então. Boa noite.
― Boa noite.
E aí eu fechei a porta e deixei minha irmã dormir.
Não estava com vontade de ler naquela noite, então desci as escadas e assisti a um comercial de meia hora que anunciava um aparelho de ginástica. O número de discagem gratuita piscava na tela, então eu telefonei. A mulher que atendeu do outro lado da linha se chamava Michelle. E eu disse a Michelle que era um garoto e não precisava de aparelho de ginástica, mas que esperava que ela tivesse uma boa noite. E então Michelle desligou na minha cara. E eu não me importei nem um pouco.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
7 de março de 1992
 
Querido amigo,
As garotas são estranhas e não digo isso para ofender. É que eu não consigo colocar de outra forma.
Eu saí novamente com Mary Elizabeth. De muitas maneiras, foi semelhante àquela festa, exceto que usávamos roupas mais confortáveis. Foi ela quem me chamou para sair novamente, e eu acho que está tudo bem, mas acho que tenho que começar a convidá-la para sair de vez em quando, porque não posso esperar ser convidado sempre. Além disso, se eu fizer o convite, terei certeza de estar saindo com a garota que eu escolhi, se ela disser sim. É tudo muito complicado.
A boa notícia é que eu é que vou dirigir desta vez. Perguntei a meu pai se ele podia me emprestar o carro. Foi durante o jantar.
― Para quê? ― Meu pai era muito ciumento com o carro dele.
― Charlie arrumou uma namorada ― disse minha irmã.
― Ela não é minha namorada.
― Quem é a garota? ― perguntou meu pai.
― Que foi? ― minha mãe falou da cozinha.
― Charlie quer meu carro emprestado ― respondeu papai.
― Para quê? ― perguntou minha mãe.
― É o que eu estou tentando descobrir! ― disse meu pai em um tom de voz meio alto.
― Não precisa desse mau humor todo ― mamãe replicou.
― Desculpe ― disse meu pai sem muita convicção. Depois ele se voltou para mim. ―Então me fale desta garota.
E assim eu contei a ele sobre Mary Elizabeth, deixando de fora a parte sobre a tatuagem e o piercing no umbigo. Ele deu um meio sorriso por um tempinho, tentando ver se eu era culpado de alguma coisa. Depois disse sim. Ele ia me emprestar o carro. Quando minha mãe chegou com o café, meu pai contou a ela a história toda enquanto eu comia a sobremesa.
Naquela noite, quando eu terminava meu livro, meu pai veio e se sentou na beira da minha cama. Acendeu um cigarro e começou a me falar de sexo. Ele teve esse tipo de conversa comigo há anos, mas na época o papo foi mais biológico. Agora ele estava dizendo coisas, como… “Sei que sou seu pai, mas…”  “a gente tem que ter muito cuidado hoje em dia”, “usar preservativo”, e “se ela disser não, você tem que concluir que ela quis dizer não mesmo…” “porque se você obrigá-la a fazer alguma coisa que ela não queira, você terá um problemão, mocinho…” “E mesmo que ela diga não, mas queira dizer sim, então certamente ela está fazendo jogo duro e não vale o que você paga pelo jantar.”
“Se você precisar conversar com alguém, pode me procurar, mas se por algum motivo não quiser, fale com seu irmão”, e finalmente: “Fico feliz que tenhamos tido essa conversa.”
Depois meu pai agitou meu cabelo, sorriu e saiu do quarto. Acho que devia dizer a você que meu pai não é como os pais da televisão. Coisas como sexo não o deixam encabulado. E ele é realmente muito inteligente com essas coisas.
Acho que ele ficou especialmente feliz, porque eu costumava beijar muito um garoto da vizinhança quando era bem pequeno, e embora o psiquiatra tenha dito que era muito natural que meninos e meninas explorassem coisas assim, acredito que meu pai ainda tinha medo. Acho que é natural, mas não sei bem por quê.
De qualquer forma, Mary Elizabeth e eu fomos ver um filme no centro da cidade. Era o que chamam de “filme de arte”. Mary Elizabeth disse que havia ganhado um prêmio em algum grande festival de cinema da Europa, e isso a impressionava. Quando estávamos esperando pelo início do filme, ela disse que era vergonhoso que tanta gente saísse para ver um filme idiota de Hollywood e que houvesse tão pouca gente naquele cinema. Depois ela falou de como estava ansiosa para sair daqui e ir para a faculdade, onde as pessoas apreciam coisas como essa.
Então o filme começou. Era estrangeiro e tinha legendas, o que foi divertido, porque eu nunca havia lido um filme antes. O filme em si era muito interessante, mas não acho que fosse muito bom, porque eu não me senti diferente quando acabou.
Mas Mary Elizabeth se sentiu diferente. Ficou falando que era um filme “articulado”. Tão “articulado”. E acho que era. A questão é que eu não sei do que ela estava falando, mesmo que quisesse dizer que era muito bom.
Depois fomos de carro para a loja de discos alternativos e Mary Elizabeth me serviu de guia. Ela adora essa loja de discos. Disse que era o único lugar onde ela se sentia ela mesma. Disse que antes que as cafeterias ficassem na moda não havia lugar para gente como ela ir, exceto o Big Boy, e esse já estava ficando ultrapassado.
Ela me mostrou a seção de filmes e me falou de todos aqueles cineastas e pessoal cult da França. Depois me levou para a seção de importados e me falou da “verdadeira” música alternativa. Depois me levou para a seção folk e me falou de bandas de garotas, como a Slits.
Disse que achava muito ruim não ter me dado nada no Natal, e queria compensar agora. Então comprou um disco da Billie Holiday para mim e perguntou se eu queria ir até a casa dela para ouvir.
E aí eu estava sentado sozinho no porão enquanto ela estava lá em cima, preparando alguma coisa para bebermos. E dei uma olhada na sala, que era muito despojada e cheirava como se não morasse ninguém ali. Tinha uma lareira com troféus de golfe sobre o consolo. E havia uma televisão e um aparelho de som legal. E depois Mary Elizabeth chegou com dois copos e uma garrafa de conhaque. Disse que odiava tudo que os pais gostavam, exceto o conhaque.
Ela me pediu para servir a bebida enquanto acendia a lareira. Mary Elizabeth estava muito excitada também, o que era estranho, porque ela nunca era assim. Continuou falando do quanto gostava de lareiras e como queria se casar com um homem e morar em Vermont um dia, o que era estranho também, porque Mary Elizabeth nunca dizia essas coisas. Quando ela terminou com a lareira, colocou o disco e meio que dançou para mim. Ela disse que se sentia muito quente, mas não no sentido da temperatura.
A música começou, ela bateu o copo no meu dizendo “saúde” e tomou um gole de conhaque. A propósito, o conhaque era muito bom, mas foi melhor na festa de amigo- oculto. Terminamos o primeiro copo com muita rapidez.
Meu coração estava batendo acelerado e eu estava ficando nervoso. Ela me passou outro copo de conhaque e, quando fez isso, tocou minha mão com muita suavidade.
Depois passou a perna sobre a minha e eu vi as coisas oscilarem. Depois ela passou a mão pela minha nuca, em um movimento lento. E meu coração batia como um louco.
― Você gosta do disco? ― perguntou ela com delicadeza.
― Muito.
Eu estava gostando mesmo. Era lindo.
― Charlie?
― Hum?
― Você gosta de mim?
― Hum-hum.
― Sabe o que eu quero dizer?
― Hum-hum.
― Você está nervoso?
― Hum-hum.
― Não fique assim.
― Está bem.
Foi quando eu senti a outra mão dela. Começou no meu joelho e subiu pela lateral da minha perna até meus quadris e minha barriga. Depois ela tirou a perna de sobre a minha e se sentou em meu colo, de frente para mim. Olhou direto nos meus olhos e sem piscar nem uma vez. Seu rosto parecia caloroso e diferente. E ela se curvou e começou a beijar meu pescoço e minhas orelhas. Depois minha bochecha. Depois meus lábios. E tudo pareceu se desmanchar. Ela pegou minha mão e a levou para o suéter dela, e eu não acreditei no que estava acontecendo comigo. Ou como eu senti os seios. Ou como eles se pareciam. Ou como o sutiã era difícil para abrir.
Depois de termos feito tudo o que se pode fazer de barriga para cima, deitamos no chão e Mary Elizabeth colocou a cabeça no meu peito. Nós respirávamos muito lentamente e ouvíamos a música e a lareira crepitando. Quando a última canção terminou, eu a senti respirando no meu peito.
― Charlie?
― Hum?
― Você me acha bonita?
― Acho você muito bonita.
― Mesmo?
― Mesmo.
Então, ela me abraçou um pouco mais forte e, na meia hora seguinte, Mary Elizabeth não disse nada. Tudo o que eu fiz foi ficar deitado ali e pensar como sua voz se modificou quando ela me perguntou se eu a achava bonita, e como ela mudou quando eu respondi, e como Sam disse que ela não gostava de coisas como essa, e como meu braço estava começando a doer.
Graças a Deus ouvimos o portão automático da garagem se abrir.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
28 de março de 1992
 
Querido amigo,
Finalmente começa a ficar um pouco quente aqui e as pessoas estão mais legais nos corredores. Não necessariamente comigo, mas de uma forma geral. Escrevi um trabalho sobre Walden para o Bill, mas desta vez fiz diferente. Escrevi um relato do livro. Escrevi um relato fingindo que eu mesmo havia ficado na margem de um lago por dois anos. Eu fingi que vivia da terra e tinha insights. Para falar a verdade, acho que gostaria de fazer isso agora mesmo.
Desde aquela noite com Mary Elizabeth, tudo ficou diferente. Começou naquela segunda-feira na escola, onde Sam e Patrick olharam para mim com um largo sorriso. Mary Elizabeth tinha contado a eles que passamos a noite juntos, e eu não queria que ela tivesse feito isso, mas Sam e Patrick acharam ótimo e ficaram mesmo felizes por nós. Sam dizia:
― Como é que não pensei nisso antes? Vocês dois são perfeitos juntos.
Acho que Mary Elizabeth também pensa assim, porque ela estava agindo completamente diferente. Era legal todo o tempo, mas isso não parecia certo. Não sei como descrever. É como se nós fôssemos fumar um cigarro com Sam e Patrick do lado de fora no fim do dia e todos falássemos de alguma coisa até a hora de irmos para casa. Então, quando eu chegava em casa, Mary Elizabeth me puxaria de lado e diria: “E aí?” E eu não saberia o que dizer, porque a única coisa nova na minha vida é que vou para casa a pé, o que não é muito. Mas eu descrevo a caminhada de qualquer forma. E depois ela começa a falar e não para por um bom tempo. Toda semana ela faz isso. Isso e ficar tirando fiapos da minha roupa.
Teve uma vez, há dois dias, em que ela estava falando de livros e incluiu vários que eu li. E quando eu disse a ela que já os tinha lido, ela me fez umas perguntas muito longas, que na verdade eram apenas as ideias dela com um ponto de interrogação no final. A única coisa que eu pude dizer foi “sim” ou “não”. Sinceramente, não havia espaço para dizer mais nada. Depois disso, ela começou a falar dos planos para a faculdade, o que eu já tinha ouvido antes, e por isso coloquei o telefone na mesa, fui ao banheiro e, quando voltei, ela ainda estava falando. Sei que é errado fazer isso, mas acho que, se eu não tivesse feito uma pausa, faria alguma coisa pior. Como gritar ou bater o fone no gancho.
Ela também ficou falando do disco da Billie Holiday que havia comprado para mim. E disse que queria me mostrar todas essas coisas importantes. E, para dizer a verdade, eu não quero que me mostrem todas as coisas importantes se isso significa que eu tenho de ouvir Mary Elizabeth falar sem parar de todas as coisas importantes que ela me mostra o tempo todo. É quase como se só houvesse três coisas envolvidas: Mary Elizabeth, eu e as coisas importantes, e só a primeira importasse para Mary Elizabeth. Não entendo isso. Eu daria um disco a alguém para que pudesse gostar do disco, e não para que sempre soubesse que fui eu que dei.
E teve o jantar. Quando os feriados acabaram, minha mãe perguntou se eu gostaria que Sam e Patrick viessem jantar aqui, como havia prometido depois que eu disse que ela tinha ótimo gosto para roupas. Fiquei tão empolgado! Disse a Patrick e Sam e fizemos planos para o domingo à noite, e duas horas depois Mary Elizabeth veio para mim no saguão e disse:
“A que horas no domingo?”
Não sei o que fazer. Era só para Sam e Patrick. A ideia era essa desde o início. E eu nunca convidei Mary Elizabeth. Acho que sei por que ela achou que seria convidada, mas não esperou para ver. Ou estava jogando verde. Sei lá.
Então, no jantar – o jantar em que pensei que minha mãe e meu pai veriam como Sam e Patrick eram ótimas pessoas e muito legais – Mary Elizabeth falou o tempo todo. Não foi culpa dela. Meu pai e minha mãe lhe fizeram um monte de perguntas que não fizeram a Sam e Patrick. Acho que é porque estou saindo com Mary Elizabeth e isso desperta a curiosidade deles mais do que os meus amigos. Acho que faz sentido. Mas foi como se eles não tivessem conhecido Sam e Patrick. E o problema era esse. Quando o jantar terminou, e todos tinham partido, tudo o que mamãe e papai disseram foi que Mary Elizabeth era inteligente, e tudo o que meu pai disse é que minha “namorada” era bonita. Não disseram nada sobre Sam e Patrick. E tudo o que eu queria a noite toda era que eles conhecessem meus amigos. Era muito importante para mim.
As coisas sexuais são estranhas também. Depois daquela noite, seguimos o padrão em que nós basicamente repetimos o que fizemos da primeira vez, mas não há lareira nem disco de Billie Holiday porque estamos no carro e tudo é apressado. Talvez as coisas tenham de ser assim, mas não acho que seja certo.
Minha irmã andou lendo todos aqueles livros sobre mulheres desde que contou ao ex-namorado que a gravidez era alarme falso, e eu queria que eles reatassem, e ela disse não.
Então perguntei sobre Mary Elizabeth (deixando a parte sexual de fora) porque eu sabia que ela seria neutra a esse respeito, especialmente depois que ela ficou “isolada” no jantar. Minha irmã disse que Mary Elizabeth está sofrendo de baixa autoestima, mas eu disse que ela falou a mesma coisa sobre Sam em novembro passado, quando ela começou a namorar o Craig, e Sam é completamente diferente. Então tudo é um problema de baixa autoestima?
Minha irmã tentou esclarecer as coisas. Disse que por me mostrar a todas essas coisas, Mary Elizabeth conquistava uma “posição superior” de que não precisaria se tivesse confiança em si mesma. Ela também disse que as pessoas que tentam controlar as situações todo o tempo temem que, se não o fizerem, nada vai funcionar da forma que querem.
Não sei se isso está certo ou não, mas isso me deixou triste. Não por Mary Elizabeth. Ou por mim. Mas de modo geral. Porque eu comecei a pensar que não sabia quem na realidade era Mary Elizabeth. Não estou dizendo que ela estava mentindo para mim, mas que ela agia de forma tão diferente antes de eu a conhecer e que talvez ela não gostasse muito do que era no início. Queria que ela tivesse dito isso. Mas talvez ela seja como era no início, e eu é que não percebi. Não quero ser outra coisa sob o controle de Mary Elizabeth.
Perguntei à minha irmã o que ela faria e ela disse que a melhor coisa a fazer é ser sincero com relação a meus sentimentos. Meu psiquiatra disse a mesma coisa. E então eu me senti realmente triste, porque acho que talvez eu fosse diferente de como Mary Elizabeth me via também. E talvez eu estivesse mentindo por não contar a ela que era difícil ouvi-la todo o tempo sem poder dizer nada. Mas eu só estava tentando ser legal, como a Sam disse que eu deveria. Não sei onde estou errando.
Tentei ligar para meu irmão para conversar sobre isso, mas o colega de quarto dele disse que ele estava ocupado demais com a faculdade, então decidi não deixar recado, porque não queria atrapalhá-lo. A única coisa que fiz foi mandar meu trabalho sobreWalden para ele pelo correio, assim ele poderia compartilhar com a namorada. E depois, talvez, se ele tivesse tempo, eles podiam ler, e nós podíamos conversar sobre isso, e eu teria a oportunidade de perguntar a eles o que devo fazer com Mary Elizabeth, uma vez que eles se davam bem e sabiam como fazer as coisas darem certo. Mesmo que não conversássemos sobre isso, eu ainda adoraria conhecer a namorada do meu irmão. Mesmo que fosse por telefone. Eu a vi na fita de vídeo de um dos jogos de futebol do meu irmão, mas isso não é a mesma coisa. Muito embora ela fosse muito bonita. Mas não de uma forma não convencional. Não sei por que estou dizendo essas coisas. Eu só queria que Mary Elizabeth me fizesse outras perguntas em vez de “E aí?”.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
18 de abril de 1992
 
Querido amigo,
Fiz uma trapalhada terrível. De verdade. Eu me sinto muito mal com isso. Patrick disse que a melhor coisa a fazer é me afastar por algum tempo.
Tudo começou na segunda-feira passada. Mary Elizabeth chegou na escola com um livro de um famoso poeta chamado E. E. Cummings. A história por trás do livro é que ela viu um filme que falava de um poema dele, que compara as mãos de uma mulher com flores e chuva. Ela achou tão bonito que saiu para comprar o livro. Ela o leu várias vezes desde então, e disse que queria me dar o exemplar. Não o exemplar que ela comprou, mas um novo.
O dia inteiro ela me mostrou todo o livro.
Sei que devia ficar agradecido, porque ela fez uma coisa muito legal. Mas eu não estava grato. Nem um pouco. Não me interprete mal. Eu agi como se estivesse. Mas não estava. Para falar a verdade, eu estou começando a ficar irritado. Talvez, se ela tivesse me dado o exemplar do livro que tinha comprado para ela mesma, fosse diferente. Ou talvez se ela tivesse copiado à mão o poema da chuva, que ela adorou, em uma folha de papel. E definitivamente se ela não me fizesse mostrar o livro a todo mundo que conhecíamos.
Talvez eu devesse ser sincero com ela, mas não acho que é a hora certa.
Quando saí da escola naquele dia, não fui para casa porque não queria falar com ela ao telefone, e minha mãe não é uma mentirosa muito “hábil” nessas coisas. Em vez de ir para casa, fui a pé para a área onde estão as lojas de vídeo. Fui direto à livraria. E quando a moça por trás do balcão me perguntou se eu precisava de ajuda, abri minha bolsa e devolvi o livro que Mary Elizabeth tinha me dado. Não sei se vou fazer alguma coisa com o dinheiro. Só o coloquei no bolso.
Quando voltei para casa, tudo em que conseguia pensar era que eu tinha feito uma coisa horrível e comecei a chorar. Quando eu cheguei à porta da frente, estava chorando tanto que minha irmã parou de ver televisão para falar comigo. Quando eu contei a ela o que tinha feito, ela me levou de carro até a livraria porque eu estava muito atarantado para dirigir, e eu peguei o livro de volta, o que fez com que eu me sentisse muito melhor.
Quando Mary Elizabeth ligou naquela noite e me perguntou onde eu tinha ido o dia inteiro, eu disse a ela que tinha ido à loja com minha irmã. E quando ela perguntou se eu tinha comprado alguma coisa legal para ela, eu disse que sim. Não pensei que ela estivesse falando sério, mas concordei assim mesmo. Eu me sentia mal demais por ter devolvido o livro. Passei a hora seguinte ao telefone ouvindo Mary Elizabeth falar do livro. Depois nos despedimos. Depois desci até minha irmã para perguntar se ela podia me levar à loja novamente, para que eu pudesse comprar alguma coisa legal para Mary Elizabeth. Minha irmã me disse que eu fosse dirigindo sozinho. E que era melhor começar a ser sincero com Mary Elizabeth sobre meus sentimentos. Talvez eu devesse mesmo, mas não achava que era a hora certa.
No dia seguinte, na escola, dei o presente que havia comprado para Mary Elizabeth. Era um novo exemplar de O sol nasce para todos. A primeira coisa que Mary Elizabeth disse foi:
― Que original.
Eu disse a mim mesmo que não foi isso o que ela quis dizer. Ela não estava caçoando de mim. Ela não estava comparando. Ou criticando. E não estava mesmo. Acredite em mim. Então expliquei a ela como Bill me deu livros especiais para ler fora da aula e como O sol nasce para todos tinha sido o primeiro. E como era especial para mim. Depois ela disse:
― Obrigada. É muita gentileza sua.
Mas depois ela começou a explicar que já havia lido o livro três anos antes e achava que era “superestimado” e que tinha sido transformado em um filme em preto e branco com atores famosos, como Gregory Peck e Robert Duvall, e que ganhou um Oscar pelo roteiro. Tive de deixar meus sentimentos de lado depois disso.
Saí da escola, andei por aí e só fui para casa quando já era uma da manhã. Quando expliquei a meu pai o porquê, ele me disse para agir como um homem.
No dia seguinte, na escola, quando Mary Elizabeth me perguntou onde eu estive no dia anterior, eu disse a ela que tinha comprado um maço de cigarros, ido ao Big Boy e passado o dia inteiro lendo E. E. Cummings e comendo sanduíches. Eu sabia que era seguro dizer isso porque ela nunca me faria nenhuma pergunta sobre o livro. E eu estava certo. Depois de ela ter falado tanto sobre o livro, não vi necessidade de ler eu mesmo. Mesmo que eu quisesse.
Definitivamente acho que devo ser sincero com ela, mas, para falar a verdade, estou ficando tão irritado quanto ficava quando praticava esportes e isso está começando a me assustar.
Felizmente, os feriados da Páscoa começavam na sexta-feira, e isso distraiu um pouco as coisas. Bill me deu Hamlet para ler no feriado. Ele disse que eu precisaria de tempo livre para me concentrar na peça. Acho que não preciso dizer quem a escreveu. O único conselho que Bill me deu foi para considerar o personagem principal como os outros personagens dos livros que eu tinha lido até então. Ele disse para eu não cair na armadilha de achar que a peça era “fantasiosa demais”.
Então, na véspera da Sexta-feira Santa, tivemos uma apresentação especial de Rocky Horror Picture Show. O que a tornou especial foi o fato de que todos sabiam que era o início dos feriados de Páscoa e um monte de garotos ainda estava vestindo as roupas da missa. Isso me lembrou a Quarta-feira de Cinzas na escola, quando os garotos foram com impressões digitais na testa. Isso sempre cria um ar mais animado.
Depois do show, Craig convidou a todos para irem a seu apartamento beber vinho e ouvir o White Album dos Beatles. Depois que o disco terminou, Patrick sugeriu que brincássemos do jogo da verdade ou desafio, um jogo que ele adora jogar quando está “ligado”.
Adivinha quem escolheu desafio a noite toda? Eu. Não queria contar a verdade a Mary Elizabeth por causa de um jogo.
Funcionou muito bem na maior parte da noite. Os desafios eram coisas como “virar a cerveja toda”. Mas então Patrick me deu um desafio. Não acho que ele soubesse o que estava fazendo, mas ele me deu esse:
“Beije na boca da garota mais bonita da sala.”
Foi quando eu escolhi ser sincero. Pensando nisso agora, eu provavelmente não podia ter escolhido um momento pior.
O silêncio começou depois que eu me levantei (porque Mary Elizabeth estava sentada de frente para mim). Mas na hora em que eu me abaixei diante da Sam e a beijei, o silêncio foi horrível. Não foi um beijo romântico. Foi de amizade, como quando eu interpretei Rocky, e ela, Janet. Mas isso não importa.
Eu podia dizer que tinha sido o vinho ou a cerveja que virei para dentro. Podia dizer também que eu tinha me esquecido da vez em que Mary Elizabeth me perguntou se eu a achava bonita. Mas não ia mentir. A verdade é que, quando Patrick me desafiou, eu sabia que se beijasse Mary Elizabeth estaria mentindo para todos. Inclusive para Sam. Inclusive para Patrick. Inclusive para Mary Elizabeth. E eu não podia mais fazer isso. Mesmo que fosse parte de um jogo.
Depois do silêncio, Patrick fez o que pôde para salvar a noite. A primeira coisa que ele disse foi:
― Bom, isso não é constrangedor?
Mas não deu certo. Mary Elizabeth saiu apressada da sala e foi para o banheiro. Patrick me disse mais tarde que ela não queria que ninguém a visse chorando. Sam a seguiu, mas, antes que deixasse a sala, virou-se para mim e disse num tom sério e sombrio:
― Que merda de problema você tem?
Eu estava olhando em seu rosto quando ela disse isso. E vi o quanto ela falava sério. Isso fez com que de repente a realidade viesse à tona. Eu me senti péssimo. Simplesmente péssimo. Patrick imediatamente se levantou e me tirou do apartamento de Craig. Caminhamos pela rua e a única coisa de que eu estava consciente era do frio. Eu disse que podia voltar e me desculpar. Patrick disse:
― Não. Eu pego os casacos. Fique aqui.
Quando Patrick me deixou do lado de fora, eu comecei a chorar. Era um choro sentido e apavorado e eu não consegui parar. Quando Patrick voltou, eu disse, chorando muito:
― Eu realmente acho que devo me desculpar.
Patrick sacudiu a cabeça.
― Acredite em mim. Você não quer ir até lá.
Então ele sacudiu as chaves do carro diante do meu rosto e disse:
― Vamos. Eu levo você para casa.
No carro, contei a Patrick tudo o que estava acontecendo. Sobre o disco. E o livro. E O sol nasce para todos. E como Mary Elizabeth nunca fazia nenhuma pergunta. E tudo o que Patrick disse foi:
― Ainda bem que você não é gay.
Isso me fez parar de chorar por um tempo.
― Se você fosse gay, eu nunca namoraria você. Você é muito confuso.
Isso me fez rir.
― E eu acho que o Brad ia ficar maluco. Meu Deus.
Isso me fez rir ainda mais. Depois ele ligou o rádio e pegamos o túnel de volta para casa. Quando me deixou aqui, Patrick me disse que a melhor coisa a fazer era ficar afastado por um tempo. Acho que já disse isso a você. Ele disse que, quando soubesse de mais coisas, me telefonaria.
― Obrigado, Patrick.
― Não precisa agradecer.
E depois eu disse:
― Sabe de uma coisa, Patrick? Se eu fosse gay, ia querer namorar você.
Não sei por que eu disse isso, mas parecia correto.
Patrick riu e disse:
― É claro que sim.
Depois arrancou para a rua.
Quando me deitei na cama naquela noite, coloquei o disco de Billie Holiday e comecei a ler o livro de poemas de E. E. Cummings. Depois que li o poema que compara as mãos da mulher com flores e chuva, deixei o livro de lado e fui para a janela. Fiquei vendo meu reflexo e as árvores por trás por um longo tempo. Não pensei em nada. Não senti nada. Não ouvi o disco. Isso durou horas.
Tem alguma coisa errada comigo. E eu não sei o que é.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
26 de abril de 1992
 
Querido amigo,
Ninguém me telefonou desde aquela noite. Eu não os culpo. Passei todo o feriado lendo Hamlet. Bill estava certo. Era muito mais fácil pensar no cara da peça como os outros personagens que eu já havia lido. Também foi útil para mim quando pensei no que havia de errado comigo. Não me deu nenhuma resposta, mas me ajudou a compreender que outra pessoa havia passado por isso. Especialmente alguém que viveu há tanto tempo.
Liguei para Mary Elizabeth e disse a ela que tinha ouvido o disco naquela noite e lido o poema de E. E. Cummings.
“É tarde demais para isso, Charlie”, foi o que ela disse.
Eu teria explicado que não queria voltar a namorá-la e que estava fazendo essas coisas como amigo, mas eu sabia que isso tornaria as coisas piores, então não fiz.
Eu apenas disse:
― Desculpe. Eu sinto muito.
E eu realmente sentia. E sabia que ela acreditava em mim. Mas quando isso não fez nenhuma diferença, e não houve nada no telefone a não ser o silêncio, eu reconheci que era tarde demais.
Patrick me ligou, mas tudo o que ele disse foi que Craig ficou muito chateado com a Sam por minha causa e que eu devia continuar afastado até que a poeira baixasse. Perguntei a ele se gostaria de sair, só ele e eu. Ele disse que estaria ocupado com Brad e coisas da família, mas tentaria me telefonar se encontrasse algum tempo. No fim, não telefonou.
Eu contaria a você sobre o Domingo de Páscoa com a minha família, mas já contei tudo sobre o Dia de Ação de Graças e o Natal, e não há muita diferença entre eles.
Exceto pelo fato de meu pai ter tido um aumento, e minha mãe não, porque ela não era paga para cuidar da casa, e minha irmã parou de ler aqueles livros de autoajuda porque conheceu outro cara.
Meu irmão voltou para casa, mas, quando perguntei se a namorada dele tinha lido meu trabalho sobre Walden, ele disse que não, porque ela terminou com ele quando descobriu que a estava enganando. Isso aconteceu há algum tempo. Então perguntei se ele mesmo tinha lido, e ele disse que não, porque andou muito ocupado. Ele disse que tentaria ler durante o feriado. Até agora ele não leu.
Então fui visitar tia Helen e, pela primeira vez na minha vida, isso não me ajudou. Tentei seguir meus planos e lembrar todos os detalhes sobre a última vez em que tive uma semana ótima, mas isso também não ajudou.
Eu sei que provoquei tudo isso. Sei que mereço. Eu tento de tudo para não ser assim. Faço tudo para agradar a todos. E não tenho de ver meu psiquiatra, que me explique sobre ser “agressivo passivo”. E não tenho de tomar o remédio que ele me passa, que é caro demais para meu pai. E não tenho de falar de minhas lembranças com ele. Ou ser nostálgico com coisas ruins.
Só queria que Deus, ou meus pais, ou minha irmã, ou alguém me dissesse o que há de errado comigo. Que me dissesse como ser diferente de uma forma que faça sentido. Que fizesse tudo isso passar. E desaparecer. Sei que é errado, porque a responsabilidade é minha, e sei que as coisas pioram antes de melhorarem porque é o que diz meu psiquiatra, mas essa fase pior está grande demais para mim.
Depois de uma semana sem conversar com ninguém, eu finalmente telefonei para Bob. Eu sei que é errado, mas não sei mais o que fazer. Perguntei a ele se tinha alguma coisa que eu pudesse comprar. Ele disse que tinha alguns gramas de maconha. Então peguei parte do meu dinheiro da Páscoa e fui comprar.
Desde então, estou fumando o tempo todo.
Com amor,
Charlie.

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