Livro On – As vantagens de ser invisível – Parte 4

 
29 de abril de 1992
 
Querido amigo,
Eu queria dizer que as coisas estão melhores, mas infelizmente isso não é verdade. É duro também, porque as aulas recomeçaram e não posso ir aos lugares que costumava ir. E não pode ser como era antes. E eu ainda não estava pronto para dizer adeus.
Para falar a verdade, eu tenho evitado tudo. Ando pelos corredores da escola e olho as pessoas. Olho os professores e me pergunto por que eles estão aqui. Se eles gostam do emprego. Ou de nós. E me pergunto se eles eram tão inteligentes quando tinham quinze anos. Não por maldade minha. É só curiosidade. É como olhar todos os estudantes e me perguntar quem estava magoado naquele dia, e, além disso, como eles eram capazes de lidar com três provas e um trabalho de literatura. Ou imaginar quem foi que os magoou. E imaginar por quê. Especialmente depois que eu soube que, se eles forem para outra escola, a pessoa que se magoou teria de ser magoada por mais alguém, e, assim, por que tem de ser tudo tão pessoal? E se eu fosse para outra escola, jamais teria conhecido Sam ou Patrick, ou Mary Elizabeth nem ninguém, exceto minha família.
Posso te contar uma coisa que aconteceu. Eu estava no shopping porque é para onde vou mais tarde. Nas últimas duas semanas, tenho ido para lá todo dia, tentando imaginar por que as pessoas vão lá. É uma espécie de projeto pessoal.
Tinha aquele garotinho. Ele devia ter uns quatro anos. Não tenho certeza. Estava chorando muito e gritava pela mãe. Devia estar perdido. Então eu vi o mais velho, que devia ter uns dezessete. Acho que ele ia a uma escola diferente porque eu nunca o tinha visto antes. De qualquer modo, o mais velho, que tinha um ar durão, com jaqueta de couro, cabelos compridos e tudo isso, se aproximou do garotinho e perguntou o nome dele. O garotinho respondeu e parou de chorar.
Então o mais velho saiu com o garotinho.
Um minuto depois, ouvi os alto-falantes dizendo para a mãe que seu filho estava no balcão de informações. Então fui para o balcão de informações para ver o que ia acontecer.
Acho que a mãe estava procurando pelo filho há um bom tempo, porque chegou correndo ao balcão de informações e, quando viu o garotinho, ela começou a chorar. Depois agradeceu ao mais velho pela ajuda e tudo o que ele disse foi: “Da próxima vez tome conta dele um pouquinho melhor.”
Depois ele saiu.
O homem de bigode por trás do balcão de informações ficou sem fala. E a mãe também. O garotinho esfregou o nariz, olhando para a mãe, e disse:
“Batata frita.”
A mãe olhou para baixo, para o garotinho, concordou e eles saíram. Então eu os segui. Eles foram para a praça de alimentação e compraram batatas fritas. O garotinho estava sorrindo e se sujando todo de ketchup. E a mãe ficava esfregando o rosto dele entre tragadas no cigarro que fumava.
Fiquei observando a mãe, tentando imaginar como devia ser quando era jovem. Se ela era casada. Se o garotinho tinha sido um acidente ou fora planejado. E se isso fazia alguma diferença.
Vi outras pessoas lá. Velhos sentados sozinhos. Garotas com sombra azul nos olhos e queixos desajeitados. Garotinhos que pareciam cansados. Pais em casacos bonitos que pareciam ainda mais cansados. Garotos trabalhando por trás dos balcões da praça de alimentação que pareciam não ter vontade de viver. As máquinas se abrindo e fechando. As pessoas dando o dinheiro e pegando o troco. E tudo isso parecia muito perturbador para mim.
Então decidi encontrar outro lugar para ir e imaginar por que as pessoas iam lá. Infelizmente não há muitos lugares assim. Não sei quanto tempo eu posso continuar sem um amigo. Eu costumava ser capaz de fazer isso com muita facilidade, mas foi antes de eu saber como era ter um amigo. É muito mais fácil não saber das coisas de vez em quando. E apenas comer batatas fritas com sua mãe.
A única pessoa com quem eu conversei nas últimas duas semanas foi Susan, a garota que costumava “sair” com Michael no primeiro grau, quando ela usava aparelho nos dentes. Eu a vi parada no saguão, cercada por um grupo de garotos que eu não conhecia. Todos estavam rindo e fazendo piadas sexuais, e Susan estava se esforçando para rir junto com eles. Quando ela me viu me aproximando do grupo, seu rosto ficou “cinzento”. É como se ela não quisesse se lembrar de como era doze meses atrás, e certamente não queria que os garotos soubessem que ela me conhecia e era minha amiga. Todo o grupo ficou em silêncio me encarando, mas eu não os percebi. Só olhei para Susan, e tudo o que eu disse foi:
“Nunca sentiu a falta dele?”
Não disse isso por maldade, nem a estava acusando de nada. Só queria saber se alguém mais se lembrava de Michael. Para falar a verdade, eu estava meio chapado e não conseguia tirar a pergunta da minha cabeça.
Susan ficou perplexa. Ela não sabia o que fazer. Foram as primeiras palavras ditas desde o final do ano passado.
Acho que não foi justo para mim perguntar a ela em um grupo como aquele, mas eu nunca mais a vi sozinha depois e eu precisava mesmo saber.
A princípio, pensei que sua expressão pálida fosse o resultado da surpresa, mas depois, como fiquei algum tempo parado ali, eu sabia que não era. De repente me ocorreu que, se Michael estivesse por aqui, Susan provavelmente não estaria “saindo” mais com ele. Não porque ela fosse má pessoa, ou frívola, ou cruel. Mas porque as coisas mudam. E os amigos partem. E a vida não para pra ninguém.
“Desculpe se estou aborrecendo você, Susan. Só estou passando por uma fase difícil. É isso. Tudo de bom para você”, eu disse e me afastei.
“Meu Deus, esse garoto é um puta anormal”, ouvi um dos garotos sussurrando quando eu estava a meio caminho do saguão. Ele disse isso mais como uma constatação e Susan não o corrigiu. Não sei se eu mesmo o teria corrigido.
Com amor,
Charlie.
 

 
2 de maio de 1992
 
Querido amigo,
Alguns dias atrás, eu fui ver Bob para comprar mais maconha. Devo dizer que eu me esqueci de que Bob não vai à escola conosco. Provavelmente porque ele assiste mais televisão do que qualquer um que eu conheço, e ele é muito bom com trivialidades. Você devia vê-lo falando de Maty Tyler Moore. É meio assustador.
Bob tinha uma forma muito específica de viver. Ele disse que toma banho dia sim, dia não. Pesa seus “papelotes” diariamente. Ele disse que quando você está fumando um cigarro com alguém, e tem um isqueiro, deve acender o cigarro do outro primeiro. Mas se você tem fósforos deve acender o seu primeiro, para respirar o “enxofre prejudicial” antes do outro. Ele disse que é uma coisa educada a fazer. Ele também disse que é falta de sorte ter “três em um grupo”. Ele aprendeu isso com um tio que lutou no Vietnã. Alguma coisa a ver com três cigarros dar tempo suficiente para o inimigo saber que você está ali.
Bob diz que quando você está sozinho, e acende um cigarro, e o cigarro se acende pela metade, significa que alguém está pensando em você. Ele também diz que quando você encontra uma moeda, só é sorte se estiver com a cara para cima. Ele diz que a melhor coisa a fazer é encontrar uma moeda da sorte quando você está com alguém e dar a boa sorte ao outro. Ele acredita em carma. E também adora jogar cartas.
Bob frequenta o colégio comunitário local em meio período. Ele quer ser chefe de cozinha. É só um garoto e os pais dele nunca estão em casa. Ele diz que isso o aborrecia muito quando era mais novo, mas agora não o chateia mais.
O que acontece com o Bob é que, quando você o conhece, ele é realmente interessante, porque ele sabe das regras do cigarro, de moedas e de Mary Tyler Moore. Mas depois que você o conhece um pouco mais, ele começa a repetir essas coisas. Nas últimas semanas, ele não disse nada que eu já não tivesse ouvido antes. Por isso foi um choque para mim quando ele me disse o que estava acontecendo.
Basicamente, o pai de Brad pegou Brad e Patrick juntos.
Acho que o pai de Brad não sabe sobre o filho, porque, quando ele os pegou, o pai de Brad começou a bater nele. Não foi uma palmada. Foi com o cinto. Bateu de verdade. Patrick contou a Sam, que contou a Bob, que ele nunca tinha visto nada como aquilo. Acho que foi muito ruim. Ele queria dizer “Pare” e “Você está matando ele”. Ele queria ter derrubado o pai de Brad. Mas ficou paralisado. E Brad ficava gritando “Vai embora!” para Patrick. E por fim Patrick saiu.
Isso foi na semana passada. E Brad ainda não está indo à escola. Todo mundo acha que ele pode ter sido mandado para uma escola militar ou algo assim. Ninguém tem certeza de nada. Patrick tentou ligar uma vez, mas quando o pai de Brad atendeu, ele desligou.
Bob disse que Patrick estava “malzão”. Nem posso lhe contar como eu fiquei triste quando ele me disse isso, porque eu queria ligar para o Patrick, ser amigo dele e ajudá-lo. Mas não sei se devo telefonar para ele, por causa do que ele disse sobre esperar até que a poeira baixasse. O caso é que eu não consigo pensar em mais ninguém.
Então, na sexta-feira, fui ao Rocky Horror Picture Show. Esperei até que o filme já tivesse começado antes de entrar no cinema. Não queria estragar o show para ninguém. Eu só queria ver Patrick interpretar Frank’n Furter como ele sempre faz, porque eu sabia que, se o visse ali, eu saberia que ele estava bem. Da mesma forma que minha irmã ficando louca comigo por fumar cigarros.
Sentei na última fila e olhei para o palco. Ainda havia algumas cenas antes da entrada de Frank’n Furter. Foi quando eu vi Sam interpretando Janet. E senti muito a falta dela. E lamentei tanto estar sentindo a falta de todo mundo. Especialmente quando vi Mary Elizabeth interpretando Magenta. Foi muito difícil assistir a tudo isso. Mas Patrick finalmente apareceu como Frank’n Furter, e ele estava ótimo. Na verdade, estava melhor do que antes de várias maneiras. Foi tão legal ver todos os meus amigos. Saí antes que o filme terminasse.
Fui para casa ouvindo algumas das canções que ouvia naquelas vezes em que éramos infinitos. E fingi que eles estavam no carro comigo. Cheguei a falar em voz alta. Disse a Patrick como eu o achava ótimo. Perguntei a Sam sobre Craig. Disse a Mary Elizabeth que eu lamentava muito e o quanto realmente gostei do livro de E. E. Cummings e queria fazer perguntas sobre ele. Mas então parei, porque aquilo estava me deixando muito triste. Eu também pensei que se alguém me visse falando alto sozinho no carro, seus olhares me convenceriam de que o que estava errado comigo poderia ser pior do que eu imaginava.
Quando cheguei em casa, minha irmã estava vendo um filme com o novo namorado. Não há muito a dizer a respeito dele, exceto que seu nome é Erik, ele tem cabelo curto e é calouro. Erik tinha pegado o filme na locadora. Depois de um aperto de mãos, perguntei sobre o filme, porque não reconheci, exceto por um ator que costumava fazer um programa de tevê e eu não conseguia lembrar o nome dele.
Minha irmã disse:
― É uma idiotice. Você não vai gostar.
― É sobre o quê? ― perguntei.
Ela disse:
― Ah, qual é, Charlie. Já está quase acabando.
― Tudo bem para você se eu assistir ao final?
― Você pode assistir quando nós sairmos ― minha irmã respondeu.
― Bom, e se eu assistir ao final com vocês? Depois posso rebobinar e ir até o ponto em que comecei a assistir.
Foi quando ela interrompeu o filme.
― Você não se manca?
― Acho que não.
― Queremos ficar sozinhos, Charlie.
― Oh. Desculpe.
Para falar a verdade, eu sabia que ela queria ficar sozinha com Erik, mas eu queria muito ter companhia. Mas eu sabia que não era justo estragar o tempo dela só porque eu sentia falta de todo mundo, então apenas disse boa-noite e saí.
Fui para o meu quarto e comecei a ler o novo livro que Bill me deu. É chamado O estrangeiro. Bill disse que é muito fácil de ler, mas difícil de “ler bem”. Não tenho ideia do que ele quis dizer, mas até agora estou gostando do livro.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
8 de maio de 1992
 
Querido amigo,
É estranho como tudo pode voltar ao que era antes tão de repente quanto mudou originalmente. E quando uma coisa acontece e, de repente, tudo volta ao normal.
Na segunda, Brad voltou à escola.
Ele parecia muito diferente. Não que estivesse machucado ou coisa assim. O rosto dele na verdade parecia bem. Mas antes Brad sempre foi aquele cara que andava pelo corredor de cabeça erguida. Não consigo descrever de outra forma. É que algumas pessoas andam olhando para o chão por algum motivo. Elas não gostam de olhar os outros nos olhos. Brad nunca foi assim. Mas agora é. Especialmente quando encontra Patrick.
Eu os vi conversando em voz baixa no corredor. Eu estava longe demais para poder ouvir o que diziam, mas posso contar que Brad estava ignorando Patrick. E quando Patrick começou a se irritar, Brad apenas fechou seu armário e se afastou. Não foi estranho porque Brad e Patrick nunca se falaram na escola, porque Brad queria que fosse um segredo. A parte estranha é que foi o Patrick quem se aproximou de Brad. Então acho que eles não se viam mais nos campos de golfe. E não se falavam mais ao telefone.
Depois, à tardinha, eu estava fumando um cigarro no lado de fora, sozinho, e vi Patrick sozinho, também fumando. Eu não estava perto o bastante para realmente vê-lo, mas não quis interromper aquele momento tão pessoal, e então não me dirigi a ele. Mas Patrick estava chorando. Estava chorando muito. Depois disso, onde quer que eu o visse, ele não parecia estar presente. Parecia que estava em outro lugar. E acho que eu sabia disso, porque é assim que as pessoas costumavam dizer que eu era. Talvez elas ainda falem essas coisas. Não sei.
Na quinta-feira, aconteceu uma coisa horrível.
Eu estava sentado sozinho no refeitório, comendo um bife, quando vi Patrick se dirigir para Brad, que estava sentado com os colegas do time de futebol, e eu vi Brad o ignorar como havia feito no armário. E vi Patrick ficar com muita raiva, mas Brad ainda o ignorava. Então vi Patrick dizer alguma coisa, e ele parecia furioso quando se virou para sair. Brad ficou sentado por um segundo, depois se virou. E então eu ouvi. Foi alto o bastante para que algumas mesas ouvissem o que Brad gritou para Patrick:
― Viado!
Os colegas de futebol de Brad começaram a rir. Algumas mesas ficaram em silêncio quando Patrick se virou. Estava furioso como o diabo. Não estou brincando. Disparou como uma bala até a mesa de Brad e disse:
― Do que foi que você me chamou?
Meu Deus, ele estava louco. Nunca vi o Patrick assim antes.
Brad ficou quieto por um momento, mas os colegas começaram a provocá-lo, empurrando seus ombros. Brad olhou para Patrick e disse mais lentamente e com mais maldade do que da primeira vez:
― Eu chamei você de viado.
Os colegas de Brad começaram a rir ainda mais alto. Quer dizer; até que Patrick deu o primeiro soco. Foi meio sinistro quando todo o refeitório ficou em silêncio, e depois a barulheira começou.
A briga foi dura. Muito mais dura do que aquela que eu tive com Sean no ano passado. Não era uma luta limpa como você vê nos filmes. Eles brigavam e batiam. E o mais agressivo e mais furioso dos dois dava os maiores golpes. Neste caso, estava tudo bem, até que os amigos de Brad se envolveram, e aí ficaram cinco contra um.
Foi quando eu me meti. Não consegui ficar assistindo a eles machucarem o Patrick, apesar de a poeira ainda não ter baixado para mim.
Acho que não há ninguém que eu conheça que pode me enfrentar numa briga. Exceto talvez meu irmão. Ele me ensinou o que fazer nessas situações. Não quero entrar em detalhes, a não ser dizer que, quando tudo terminou, Brad e dois amigos dele pararam de brigar e só me encaravam. Seus outros dois colegas estavam deitados no chão. Um estava agarrando o joelho que eu tinha atingido com uma das cadeiras de metal do refeitório. O outro estava com as mãos no rosto. Eu bati nos olhos dele, mas não muito. Não quero ser mau demais.
Olhei para o chão e vi Patrick. O rosto dele estava muito machucado e ele chorava muito. Eu o ajudei a ficar de pé e depois olhei para Brad. Não acho que já tenhamos trocado sequer duas palavras antes, mas achei que era hora de começar. E tudo o que eu disse foi:
― Se fizer isso novamente, eu conto a todo mundo. E se isso não funcionar, eu vou te deixar cego.
Apontei para o cara que estava cobrindo o rosto, e eu sabia que Brad tinha me ouvido e sabia que eu falava a sério. Mas não respondeu nada, porque os seguranças de nossa escola chegaram para nos tirar do refeitório. Primeiro nos levaram à enfermaria, e depois ao Sr. Small. Patrick tinha começado a briga, então foi suspenso por duas semanas. Os colegas de Brad pegaram três dias cada um por atacarem covardemente Patrick depois que a briga havia começado. Brad não foi suspenso, porque foi autodefesa. Eu não fui suspenso porque só estava ajudando a defender um amigo quando estava cinco contra um.
Brad e eu pegamos um mês de castigo, a começar de agora.
No castigo, tínhamos de ficar na escola além de nosso horário. O Sr. Harris não estabeleceu regra nenhuma. Só nos fez ler, ou fazer o dever de casa, ou conversar. Não é uma punição de verdade, a menos que você goste de programas de televisão depois da escola ou esteja muito preocupado com seu histórico escolar. Eu me pergunto se isso valia de alguma coisa. Quero dizer, o histórico escolar.
No primeiro dia de castigo, Brad veio se sentar perto de mim. Parecia muito triste. Acho que de tanto apanhar ele se arrependeu da briga.
― Charlie?
― O quê?
― Obrigado. Obrigado por ter parado aquilo.
― Não há de quê.
E foi isso. Eu não falei mais nada com ele desde então. E ele não se sentou perto de mim hoje. A princípio, quando ele disse isso, eu fiquei meio confuso. Mas depois eu pensei que tinha entendido. Porque eu não iria querer um bando de amigos meus surrando a Sam mesmo que eu nunca mais gostasse dela.
Quando saí do castigo naquele dia, Sam estava esperando por mim. No minuto em que a vi, ela sorriu. Eu fiquei entorpecido. Não conseguia acreditar que ela estava ali. Então eu a vi se virar e dar um olhar gélido para Brad.
-― Diga a ele que eu peço desculpas ― disse Brad.
― Diga você mesmo ― respondeu Sam.
Brad se afastou e foi para seu carro. Depois Sam caminhou na minha direção e mexeu no meu cabelo.
― Então eu soube que você é ninja ou coisa parecida.
Acho que concordei.
Sam me levou para casa em sua picape. No caminho, ela me disse que ficou com muita raiva de mim por ter feito o que fiz com Mary Elizabeth. Ela me disse que Mary Elizabeth é uma velha amiga deles. Ela chegou a me lembrar de que Mary Elizabeth a ajudou quando ela passou por aquela época difícil de que me falou quando me deu a máquina de escrever. Não quero repetir o que foi.
Então ela disse que, quando eu a beijei, em vez de beijar Mary Elizabeth, destruí sua amizade por algum tempo. Porque eu acho que Mary Elizabeth gostava muito de mim. Isso me deixou triste, porque eu não sei se ela gostava tanto assim de mim. Só achava que ela queria me mostrar todas as coisas importantes. Foi aí que a Sam disse:
― Charlie, você é tão idiota às vezes. Sabia disso?
― Sabia. Mesmo. Eu sei disso. Sério.
Depois ela disse que Mary Elizabeth e ela já se refizeram disso, e ela me agradecia por ter me aconselhado com Patrick e me afastado como eu fiz, porque isso tornou as coisas mais fáceis. Depois eu disse:
― Então podemos ser amigos agora?
― É claro ― foi tudo o que ela disse.
― E Patrick?
― E Patrick.
― E todo mundo?
― E todo mundo.
Foi aí que comecei a chorar. Mas Sam me fez parar.
― Lembra o que eu disse ao Brad?
― Lembro. Você disse a ele que ele mesmo devia falar com Patrick.
― Isso vale para Mary Elizabeth também.
― Eu tentei, mas ela me disse…
― Eu sei que você tentou. Estou dizendo para tentar de novo.
― Tudo bem.
Sam me deixou em casa. Quando estava longe demais para poder me ver, eu comecei a chorar novamente. Porque ela era minha amiga de novo. E isso era o bastante para mim. Então prometi a mim mesmo nunca mais confundir as coisas como fiz daquela vez. E nunca mais fiz. Isso eu posso lhe garantir.
Quando fui no Rocky Horror Picture Show à noite, foi muito tenso. Não por causa de Mary Elizabeth. Com ela estava tudo bem. Eu me desculpei e depois perguntei a ela se havia alguma coisa que quisesse me dizer. E, como antes, fiz uma pergunta e tive uma longa resposta. Quando eu estava ouvindo (eu realmente a ouvi), pedi desculpas novamente. Depois ela me agradeceu por não tentar diminuir a mim mesmo pedindo desculpas demais. E as coisas voltaram ao normal, exceto pelo fato de que agora éramos amigos.
Para falar a verdade, acho que a principal razão para tudo estar bem com Mary Elizabeth é que ela começou a namorar um amigo de Craig. O nome dele é Peter e está na faculdade, o que deixa Mary Elizabeth feliz. Na festa no apartamento de Craig, eu ouvi por acaso Mary Elizabeth dizer a Alice que estava muito feliz com Peter porque ele “tinha opinião própria” e eles discutiam as coisas. Ela disse que eu era um doce e compreensivo, mas que nosso relacionamento era unilateral. Ela queria alguém que fosse mais aberto a discussões e não precisasse da permissão de alguém para falar.
Tive vontade de rir. Ou talvez tenha ficado irritado. Ou talvez tenha me surpreendido de como as coisas eram estranhas, especialmente para mim. Mas eu estava numa festa com meus amigos, então isso não importava tanto assim. Eu só bebi, porque pensei que já era hora de parar de fumar tanta maconha.
O que deixou aquela noite tensa foi o Patrick ter deixado de fazer oficialmente Frank’n Furter no show. Ele disse que não queria mais fazer aquilo… Nunca mais. Então, sentou e assistiu ao show na plateia comigo, e ele disse coisas que eram difíceis de ouvir, porque Patrick normalmente não é um cara infeliz:
― Já pensou, Charlie, que nosso grupo é o mesmo de qualquer outro grupo de time de futebol? E que a única diferença real entre nós é o que vestimos e por que vestimos isso?
― É?
Houve uma pausa.
― Bom, acho que é tudo uma grande bobagem.
E ele estava falando sério. Foi difícil vê-lo desse jeito.
Um cara que eu não conhecia de lugar nenhum fez o papel de Frank’n Furter. Ele tinha substituído Patrick por muito tempo e agora teve sua oportunidade. Era muito bom também. Não tão bom quanto Patrick, mas era muito bom.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
11 de maio de 1992
 
Querido amigo,
Passei muito tempo com Patrick naquela fase. Eu não disse muita coisa. Só ouvia e concordava, porque Patrick precisava falar. Mas não como era com Mary Elizabeth. Isso era diferente.
Começou no sábado de manhã, depois do show. Eu estava na minha cama, tentando conceber por que às vezes você acorda e volta a dormir e outras vezes não consegue. Então minha mãe bateu na porta.
― Seu amigo Patrick está no telefone.
Então eu me levantei e espantei o sono.
― Alô?
― Vista-se. Estou a caminho.
Click. Foi isso. Eu tinha muito trabalho para fazer, porque o final do ano letivo estava se aproximando, mas parecia que íamos ter algum tipo de aventura, então me vesti.
Patrick encostou o carro dez minutos depois. Estava usando as mesmas roupas da noite anterior. Não tinha se barbeado nem nada. Acho que ele nem mesmo dormiu. Estava acordado à base de café, cigarros e Mini Thins, que são pequenos comprimidos que você pode comprar nas lojas de conveniência. Eles mantêm você desperto. Não são ilegais nem nada, mas dão muita sede em você.
Então entrei no carro de Patrick, que estava cheio de fumaça de cigarro. Ele me ofereceu um, mas eu disse que não ia fumar na frente da minha casa.
― Seus pais não sabem que você fuma?
― Não. Acha que devem saber?
― Acho que não.
Então saímos com o carro. Acelerado.
A princípio, Patrick não falou muito. Apenas ouvia a música no toca-fitas. Depois que a segunda canção começou, perguntei a ele se era a fita que eu tinha gravado de amigo oculto.
― Estou ouvindo isso a noite toda.
Patrick deu aquele sorriso que cobria todo o rosto. Foi um sorriso doentio. Cansado e meio atordoado. Ele aumentou o volume. E acelerou o carro.
― Vou te contar uma coisa, Charlie. Estou me sentindo bem. Sabe o que quero dizer? Realmente bem. Como se estivesse livre ou coisa parecida. Como se não tivesse de fingir mais. Estou indo para a faculdade, não é? Lá será diferente. Você está me entendendo?
― Claro.
― Pensei a noite toda sobre o tipo de pôsteres que quero colocar no meu quarto do alojamento. E se terei uma parede de tijolos aparentes. Eu sempre quis uma parede de tijolinhos, para que eu possa pintar nela. Tá me entendendo?
Desta vez eu só assenti, porque ele não estava esperando um “é claro”.
― As coisas vão ser diferentes lá. Têm de ser.
― Elas serão ― eu disse.
― Você acha mesmo isso?
― É claro.
― Obrigado, Charlie.
E foi assim o dia todo. Fomos ver um filme. E comemos pizza. E sempre que Patrick se sentia cansado, pedia café, e ele engoliu outro Mini Thin ou dois. Quando começou a anoitecer, ele me mostrou todos os lugares onde ele e Brad se encontravam. Não falou muito a respeito deles. Ele só olhava.
Terminamos no campo de golfe.
Sentamos no gramado dezoito, que era bem no alto da colina, e vimos o sol desaparecer. Patrick tinha comprado uma garrafa de vinho tinto com a carteira de identidade falsificada e a passávamos de um para o outro. Só conversando.
― Você já ouviu falar de Lily? ― perguntou ele.
― Quem?
― Lily Miller. Não sei qual era o verdadeiro nome dela, mas era conhecida como Lily. Ela era veterana quando eu era segundanista.
― Acho que não.
― Pensei que seu irmão tinha lhe contado. É um clássico.
― Talvez.
― Muito bem. Me interrompa se você já conhecer a história.
― Tudo bem.
― Então, Lily chegou aqui com aquele cara que era protagonista em todas as peças de teatro.
― Parker?
― Isso, Parker. Como você sabe?
― Minha irmã teve uma queda por ele.
― Perfeito! ― Estávamos ficando bem bêbados. ― Então Parker e Lily chegaram aqui uma noite. E eles estavam tão apaixonados! Ele chegou a interpretar para ela ou coisa assim.
Nesse ponto, Patrick estava cuspindo vinho entre as frases e rindo muito.
― Eles tinham uma canção. Algo parecido com “Broken Wings” (“Asas feridas”), da banda Mr. Mister. Não sei bem, mas espero que seja “Broken Wings” porque assim a história ficaria perfeita.
― Continue ― eu o estimulei.
― Tá bom. Tá bom. ― Tomou um gole. ― Então eles estavam saindo há um bom tempo, e acho que tinham feito sexo antes, mas estavam saindo para uma noite especial. Ela preparou um pequeno piquenique e ele levou um rádio portátil para tocar “Broken Wings”.
Patrick não podia falar nessa música sem rir por uns dez minutos.
― Tudo bem. Tudo bem. Desculpe. Então eles fizeram um piquenique com sanduíches e tudo. Eles começaram a se agarrar. O som tocando e eles estavam a ponto de “chegar lá” quando Parker se tocou que tinha esquecido as camisinhas. Estavam os dois nus nesse gramado. Os dois se queriam. Não tinha camisinha. Então, o que você acha que aconteceu?
― Não sei.
― Eles fizeram no estilo cachorrinho com um dos sacos de sanduíche!
― NÃO! ― Foi tudo o que eu pude dizer.
― É! ― Foi a réplica de Patrick.
― MEU DEUS! ― Foi minha tréplica.
― É! ― Foi a conclusão de Patrick.
Depois que conseguimos parar de rir e desperdiçamos a maior parte do vinho cuspindo-o, ele se virou para mim.
― E sabe da melhor parte?
― O quê?
― Ela era a oradora da turma. E todo mundo sabia disso quando ela se ergueu para fazer o discurso!
Não há nada como a respiração profunda depois de dar uma gargalhada. Nada no mundo se compara à barriga dolorida pelas razões certas. E essa era ótima.
Então Patrick e eu trocamos histórias que conhecíamos.
Tinha um cara chamado Barry que costumava fazer pipas nas aulas de arte. Então, depois da escola, ele colocava bombinhas na pipa e a soltava, e elas explodiam. Agora ele está estudando para ser controlador de tráfego aéreo – História de Patrick contada por Sam.
E tinha aquele garoto chamado Chip, que gastou todo o dinheiro da mesada, do Natal e dos aniversários para comprar um equipamento de dedetização, e batia de porta em porta perguntando se queriam que ele exterminasse os insetos de graça. – História minha contada por minha irmã.
Tinha um cara chamado Carl Burns e todo mundo o chamava de C.B. Um dia C.B. ficou tão bêbado numa festa que tentou “comer” o cachorro do dono da casa. – História de Patrick.
E tinha um cara que chamavam de “Action Jack” porque parece que ele foi apanhado se masturbando em uma festa. E em todos os jogos, antes de a partida começar, os garotos batiam palmas e cantavam: Action Jack… clap-clap-clap… Action Jack! –História minha contada por meu irmão.
Havia outras histórias e outros nomes. Stace Segunda Base, que tinha seios já na quarta série e deixava que alguns garotos pegassem neles. Vincent, que tomava ácido e tentou enfiar um sofá na privada. Sheila, que diziam se masturbar com um cachorro-quente e tinha de ir para o pronto-socorro. A lista era interminável.
No fim, tudo em que pude pensar era que aquelas pessoas deviam se sentir como quando vão para as reuniões de turma. Eu me pergunto se elas ficam encabuladas, e me pergunto se é um pequeno preço a pagar para ser uma lenda.
Depois que ficamos um pouco sóbrios com um café e Mini Thins, Patrick me levou para casa. A fita que gravei para ele tocava um monte de canções de inverno. E Patrick se virou para mim.
― Obrigado, Charlie.
― Que nada.
― Não, é sério. Pelo refeitório.
― Tudo bem.
Depois disso, ele se calou. Me levou para casa e encostou na entrada de carros. Demos um abraço de boa-noite e, quando eu estava prestes a sair, ele me apertou um pouco mais forte. E moveu o rosto para a frente do meu. E me beijou. Um beijo de verdade. Depois ele se afastou com lentidão.
― Desculpe.
― Não, está tudo bem.
― Mesmo. Desculpe.
― Não, é sério. Tudo bem.
Então ele disse “obrigado” e me abraçou de novo. E foi me beijar de novo. E eu deixei. Não sei por quê. Ficamos no carro dele por um bom tempo.
Não fizemos mais nada além de beijar. E nem nos beijamos por muito tempo. Depois de um tempinho, seus olhos perderam aquele ar enevoado do vinho, ou do café, ou do fato de que ele não dormiu na noite anterior. Depois ele começou a chorar. E depois ele começou a falar de Brad.
E eu deixei que falasse. Porque os amigos são para essas coisas.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
17 de maio de 1992
 
Querido amigo,
Parece que toda manhã, desde aquela primeira noite, eu acordo lerdo, e minha cabeça dói e não consigo respirar. Patrick e eu temos passado muito tempo juntos. Bebemos muito. Na verdade, Patrick bebe e eu só dou uns golinhos.
É duro ver um amigo sofrendo tanto. Especialmente quando você nada pode fazer, a não ser “estar lá”. Queria fazer com que ele parasse de sofrer, mas não posso. Então eu só o acompanho onde quer que ele queira ir para me mostrar seu mundo.
Uma noite Patrick me levou a este parque onde os homens vão para se encontrar. Patrick me disse que, se eu não quiser ser incomodado por ninguém, que eu não devo fazer contato visual. Ele disse que o contato visual é uma forma de você concordar em se agarrar anonimamente. Ninguém fala nada. Eles escolhem um lugar e vão. Depois de algum tempo, Patrick viu alguém de quem gostou. Me perguntou se eu precisava de cigarros e, quando eu disse que não, deu um tapinha no meu ombro e se afastou com o outro cara.
Eu me sentei em um banco, olhando ao redor. Tudo o que vi foram sombras de pessoas. Algumas no chão. Algumas em uma árvore. Algumas apenas andando. Tudo tão silencioso. Depois de alguns minutos, acendi um cigarro e ouvi alguém sussurrar.
― Tem um cigarro? ― perguntou a voz.
Eu me virei e vi um homem na sombra.
― Claro ― eu disse.
Estendi um cigarro para o homem. Ele pegou.
― Tem fogo?
― Claro ― eu disse e lhe risquei um fósforo.
Em vez de se inclinar e acender o cigarro, ele protegeu a chama com as mãos, como fazemos quando tem vento. Mas não havia vento. Acho que ele queria tocar minhas mãos, porque, embora estivesse acendendo o cigarro, ele levou mais tempo do que o necessário. Talvez ele quisesse ver meu rosto sob a chama do fósforo. Para ver se eu era bonito. Não sei. Ele me parecia familiar. Mas não conseguia me lembrar de quem era.
Ele apagou o fósforo.
― Obrigado. ― E exalou a fumaça.
― Tudo bem ― eu disse.
― Se importa se eu me sentar aqui? ― perguntou.
― Não, tudo bem.
Ele se sentou. E disse algumas coisas. E era a voz. Eu reconheci a voz. Então acendi outro cigarro e olhei seu rosto novamente, e parecia sério, e foi quando eu me lembrei. Era o cara que fazia o noticiário esportivo da tevê!
― Noite agradável ― ele disse.
Não era possível! Acho que consegui concordar com a cabeça, porque ele continuou falando. De esportes! Ficou falando de como o batedor indicado no beisebol era ruim, por que o basquete era um sucesso comercial e que times pareciam promissores no futebol universitário. Ele até falou no nome do meu irmão! Juro!
Tudo o que eu disse foi:
― Então, como é estar na televisão?
Devo ter feito a coisa errada, porque ele se levantou e se afastou. Foi muito ruim, porque eu queria perguntar se ele achava que meu irmão ia se profissionalizar.
Outra noite, Patrick me levou a um lugar onde vendem poppers, que é uma droga que se inala. Eles não tinham poppers, mas o cara por trás do balcão disse que tinha uma coisa que também era boa. Então Patrick comprou. Era uma lata de aerossol. Nós dois cheiramos e eu juro que pensei que fôssemos morrer de ataque cardíaco.
Acho que Patrick me levou a quase todo lugar que há para se ir que eu não conheceria de outra forma. Havia aquele karaokê em uma das ruas principais da cidade. E a boate. E aquele banheiro em uma academia. Todos esses lugares. Às vezes, Patrick pegava uns caras. Outras vezes não. Ele disse que era difícil estar seguro. E você nunca sabe.
As noites em que ele pegava alguém sempre me deixavam triste. É duro, também, porque Patrick começa cada noite realmente excitado. E sempre dizendo que se sentia livre. E que esta noite era seu destino. E coisas assim. Mas no fim da noite ele só parecia deprimido. Às vezes, ele falava de Brad. Outras vezes, não. Mas depois de algum tempo a coisa toda não interessava mais a ele e fugia das coisas para olhar o vazio.
Então, nesta noite, ele me deixou em casa. Era a noite em que tínhamos ido ao parque onde os homens se encontram. E a noite em que ele viu Brad com um cara. Brad estava envolvido demais no que estava fazendo para perceber nossa presença. Patrick não disse nada. Não fez nada. Só voltou para o carro. E dirigiu em silêncio. No caminho, atirou a garrafa de vinho pela janela. E quebrou ao cair. E desta vez ele não tentou me beijar como tinha feito toda noite. Só agradeceu a mim por ser seu amigo. E foi embora.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
21 de maio de 1992
 
Querido amigo,
O ano letivo está acabando. Temos outro mês, mais ou menos. Mas os veteranos como minha irmã, Sam e Patrick só têm mais duas semanas. Então eles têm o baile e a formatura, e estão todos ocupados fazendo planos.
Mary Elizabeth vai com o namorado, Peter. Minha irmã com Erik. Patrick com Alice. E Craig concordou em ir com Sam desta vez. Eles chegaram a alugar uma limusine e coisa assim. Mas não minha irmã. Ela vai no carro do namorado, que é um Buick.
Bill tem estado muito emotivo ultimamente, porque ele pode sentir seu primeiro ano como professor chegar ao fim. Pelo menos foi o que ele me disse. Estava planejando se mudar para Nova York para escrever peças, mas me disse que não acha que realmente queira isso. Ele gosta de lecionar inglês a jovens e acha que talvez possa entrar para o departamento de teatro também no ano que vem.
Acho que ele anda pensando muito nisso, porque não me deu outro livro para ler desde O estrangeiro. Mas me pediu para assistir a um monte de filmes, e escrever um ensaio sobre o que penso de todos eles. Os filmes eram A primeira noite de um homem, Ensina-me a viver, Minha vida de cachorro (que tinha legendas!), Sociedade dos poetas mortos e um filme chamado A incrível verdade, que foi muito difícil de achar.
Assisti a todos esses filmes em um dia. Foi ótimo.
O ensaio foi muito parecido com os últimos trabalhos que escrevi, porque tudo o que Bill me dizia para ler era muito parecido. Exceto a vez em que ele me fez ler Naked Lunch.
Aliás, ele me disse que tinha me dado aquele livro porque tinha terminado recentemente com a namorada e estava se sentindo filosófico. Acho que é por isso que ele estava triste naquela tarde em que falou de Pé na estrada. Ele se desculpou por sua vida pessoal estar afetando o ensino, e eu aceitei as desculpas, porque não sei mais o que fazer. É estranho pensar em nossos professores como pessoas, mesmo quando se trata de Bill. Acho que desde então ele reatou com a namorada. Estão morando juntos agora. Pelo menos foi o que ele me disse.
Então, na escola, Bill me deu o último livro do ano para ler. Chama-se The Fountainhead, e é muito grosso. Quando me deu o livro, Bill disse: “Seja cético a respeito deste aqui. É um grande livro. Mas procure ser um filtro, e não uma esponja.”
Às vezes, acho que Bill se esquece de que tenho dezesseis anos. Mas fico muito feliz com isso.
Ainda não comecei a ler porque fiquei muito atrasado nas outras matérias por causa do tempo que passo com Patrick. Mas, se eu puder compensar, vou terminar o primeiro ano com notas A, o que me deixa muito feliz. Quase não tiro A em matemática, mas o Sr. Cario me disse para parar de perguntar “por quê” todo o tempo e só seguir as fórmulas. Então foi o que fiz. Agora tenho notas perfeitas em minhas provas. Só queria saber o que as fórmulas significam. Sinceramente não tenho a menor ideia.
Andei pensando no que escrevi para você antes, porque eu tinha medo de começar no segundo grau. Hoje eu me sinto bem, então me parece divertido.
Aliás, Patrick parou de beber naquela noite em que viu Brad no parque. Acho que ele está se sentindo melhor Ele só quer se formar e ir para a faculdade.
Vi Brad no castigo na segunda-feira depois que o tinha visto no parque. E ele parecia como sempre estava.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
27 de maio de 1992
 
Querido amigo,
Fiquei lendo The Fountainhead nos últimos dias, e é um livro excelente. Estou lendo na capa que a autora nasceu na Rússia e veio para os Estados Unidos quando era jovem. Ela falava mal o inglês, mas queria ser escritora. Acho que é uma pessoa admirável, então me sentei e tentei escrever uma história.
“Ian MacArthur é um companheiro maravilhoso que usa óculos e os usa com deleite.”
Era a primeira frase. O problema foi que eu não conseguia encontrar a segunda. Depois de limpar meu quarto três vezes, decidi deixar Ian em paz por um tempo, porque eu estava começando a ficar chateado com ele.
Tenho tido muito tempo para escrever, ler e pensar nas coisas da semana passada, porque todo mundo está ocupado com o baile, a formatura e cronogramas. Sexta-feira que vem é o último dia de aula. E o baile é na terça, o que eu achei estranho, porque pensei que aconteceria em um fim de semana, mas Sam me disse que as escolas não podem fazer seu baile na mesma noite ou não haveria smokings nem restaurantes suficientes para ir. Eu disse que achei tudo muito bem planejado. E então no domingo é a formatura. Todos estão muito animados. Gostaria que estivesse acontecendo comigo.
Eu me pergunto como será quando eu estiver no lugar deles. O fato é que eu terei um colega de quarto e comprarei xampu. Pensei que seria ótimo ir para meu baile de formatura três anos depois da Sam. Espero que seja numa sexta-feira. E espero que eu seja o orador da turma na formatura. Espero que meu discurso seja bom. E imagino se Bill vai me ajudar com isso, se não tiver ido para Nova York escrever peças. Ou talvez ele me ajude mesmo que esteja em Nova York escrevendo peças. Acho que seria especialmente legal para ele.
Não sei. The Fountainhead é um livro muito bom. Espero estar sendo um filtro.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
2 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Você sabe o que é um trote de final de ano? Estou perguntando se você sabe porque minha irmã disse que é uma tradição em muitas escolas. Este ano, o trote foi o seguinte: alguns veteranos encheram a piscina com cerca de seis mil garrafas de refrigerante de uva. Não tenho ideia de quem bola essas coisas nem do por que, exceto que o trote de fim de ano deve significar o fim da escola. O que isso tem a ver com uma piscina de refrigerante de uva está além da minha compreensão, mas fiquei muito feliz por não ter educação física.
Na verdade tem sido uma época muito animada, porque todos nós estamos ocupados com o final do ano. Nesta sexta-feira é o último dia de aula para todos os meus amigos e minha irmã. Até as pessoas que acham que é uma “piada”, como Mary Elizabeth, não conseguem parar de dizer que é uma “piada”. É muito divertido ver tudo isso.
Assim, todos finalmente têm pensado nas faculdades para onde vão no ano que vem. Patrick vai para a Universidade de Washington porque quer ficar perto da música de lá. Ele diz que acha que quer trabalhar em uma gravadora de discos algum dia. Talvez ser publicitário ou alguém que descobre novas bandas. Sam finalmente decidiu partir cedo para o programa de verão na faculdade de sua preferência. Adoro essa expressão. Faculdade de minha preferência. Faculdade garantida é outra favorita.
O caso é que Sam está indo para duas faculdades. A faculdade de preferência e a faculdade garantida. Ela deve começar na faculdade garantida no outono, mas para ir para a faculdade de preferência ela tem de cumprir o programa especial de verão como meu irmão.
Está certo! A faculdade é a Penn State, o que é ótimo, porque agora posso visitar meu irmão e Sam em uma só viagem. Não quero pensar em Sam partindo ainda, mas imagino o que aconteceria se ela e meu irmão começassem a namorar, o que é uma idiotice, porque eles não são nada parecidos, e Sam está apaixonada por Craig. Tenho de parar com essas coisas.
Minha irmã vai para uma “pequena faculdade de ciências humanas no Oeste” chamada Sarah Lawrence. Ela quase não pôde ir, porque é muito cara, mas então conseguiu uma bolsa de estudos no Rotary Club, ou Moose Lodge, ou coisa parecida, que acho que foi muito generoso com ela. Minha irmã será a segunda da turma. Acho que ela devia ser a oradora, mas teve uma nota B quando passou por aquela dificuldade com o ex-namorado.
Mary Elizabeth vai para Berkeley. E Alice vai estudar cinema na Universidade de Nova York. Nunca soube que ela gostasse de filmes, mas acho que gosta. Ela os chama de “películas”.
Aliás, eu terminei The Fountainhead. Foi uma experiência maravilhosa. É estranho descrever a leitura de um livro como uma experiência maravilhosa, mas foi o que eu senti. É um livro diferente dos outros, porque eu não estava sendo um garoto. E não foi como O estrangeiro ou Naked Lunch, embora eu ache que foi de certa forma filosófico. Mas não foi como se você tivesse de pesquisar filosofia. Foi mais simples, eu acho, e a melhor parte é que peguei o que a autora escreveu e adaptei à minha vida. Talvez seja isso o que significa ser um filtro. Não tenho certeza.
Havia aquela parte em que um personagem, que é um arquiteto, está sentado em um barco com seu melhor amigo, que é magnata da imprensa, e o magnata da imprensa diz que o arquiteto é um homem muito frio. O arquiteto replica que, se o barco estivesse afundando, e só houvesse espaço para uma pessoa no bote salva-vidas, ele desistiria de sua vida com prazer em favor do magnata. E depois ele diz algo como…
“Eu morreria por você. Mas não viveria por você.”
Algo assim. Acho que a ideia é que cada pessoa tem de viver para a própria vida e depois escolher compartilhá-la com outra pessoa. Talvez seja isso que faça com que as pessoas “participem”. Não tenho muita certeza disso. Porque eu não sei se viveria pela Sam, e depois, ela não ia me querer, então talvez seja muito melhor assim. Assim espero.
Falei com meu psiquiatra sobre o livro e Bill, e sobre Sam e Patrick, e todas as faculdades, mas ele ficou me fazendo perguntas sobre quando eu era mais novo. O caso é que sinto que estou repetindo as mesmas lembranças para ele. Não sei. Ele diz que é importante. É o que nós veremos.
Eu escreveria um pouco mais hoje, mas tenho de decorar as fórmulas de matemática para a prova final na quinta- feira. Deseje-me sorte!
Com amor,
Charlie.
 
 
 
5 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Queria lhe contar sobre nós correndo. Teve aquele lindo pôr do sol. E aquela colina. A subida na colina em que Patrick e eu cuspimos vinho de tanto rir. E poucas horas antes, Sam e Patrick e todos que eu adoro e conheço tiveram o último dia de aula no segundo grau. E eu fiquei feliz porque eles estavam felizes. Minha irmã chegou a me deixar abraçá-la no corredor. Parabéns era a palavra do dia. Então Sam, Patrick e eu fomos ao Big Boy e fumamos cigarros. Depois saímos a pé, fazendo hora até o Rocky Horror. E ficamos falando de coisas que pareciam importantes. E ficamos olhando aquela colina. E então Patrick começou a correr atrás do pôr do sol. E Sam imediatamente o seguiu. E eu os vi em silhueta. Correndo atrás do sol.
Naquela noite, Patrick decidiu interpretar Frank’n Furter pela última vez. Ele ficou tão feliz ao vestir as roupas, e todos ficaram felizes que ele tenha decidido fazer isso. Na verdade foi muito comovente. Ele fez o melhor show que eu já vi. Talvez eu estivesse sendo parcial, mas não me importo. Foi o melhor show de que vou me lembrar. Especialmente a última canção.
A canção se chama “I’m Going Home”. No filme, Tim Curry, que interpreta o personagem, chora durante essa música. Mas Patrick estava sorrindo. E eu achei ótimo.
Consegui convencer minha irmã a ir ao show com o namorado. Eu vinha tentando levá-la desde que comecei a frequentar, mas ela nunca ia. Mas desta vez ela foi. E como minha irmã e o namorado nunca tinham visto o show antes, eram tecnicamente “virgens”, o que significa que teriam de passar por todas aquelas coisas constrangedoras antes de o show começar para serem “iniciados”. Decidi não contar essa parte para minha irmã, e ela e o namorado tiveram de subir ao palco e tentar dançar o Time Warp.
Quem não conseguia fazer a dança tinha de fingir que estava fazendo sexo com um grande boneco inflado, e eu mostrei rapidamente à minha irmã e ao namorado como dançar o Time Warp no palco, mas não sei se poderia mostrar a ela como fingir fazer sexo com um bonecão inflado.
Perguntei à minha irmã se ela queria ir à casa de Craig para a festa mais tarde, mas ela disse que um dos amigos de Craig estava dando uma festa, então era o que ia fazer. Estava tudo bem para mim, porque pelo menos ela foi ao show. E antes que saísse ela me abraçou novamente. Duas vezes em um dia! Eu realmente amo minha irmã. Especialmente quando ela é legal.
A festa na casa do Craig foi ótima. Craig e Peter compraram champanhe para comemorar com todas as pessoas que estavam se formando. E nós dançamos. E conversamos. Vi Mary Elizabeth beijar Peter e parecer feliz. E vi Sam beijando Craig e parecer feliz. E vi Patrick e Alice não se importarem de não estar beijando ninguém, porque estavam animados demais falando do futuro.
Então eu me sentei ali com uma garrafa de champanhe perto do CD player e trocava as músicas para ajustar com o clima que eu via. Eu tive sorte também, porque Craig tinha uma coleção excelente. Quando as pessoas pareciam um pouco cansadas, eu tocava alguma coisa animada. Quando pareciam que queriam conversar, eu tocava uma música suave. Foi uma ótima maneira de me sentar sozinho em uma festa e ainda fazer parte das coisas.
Depois da festa, todos me agradeceram porque disseram que a música foi perfeita. Craig disse que eu devia ser DJ, para ganhar dinheiro enquanto ainda estava na escola, como ele faz como modelo. Achei que era uma boa ideia. Talvez eu possa economizar alguma grana, então vou poder ir para uma universidade mesmo que o Rotary Club ou Moose Lodge não me ajudem.
Meu irmão disse recentemente por telefone que, se ele for para o futebol americano profissional, eu não tenho de me preocupar com o dinheiro para minha faculdade. Ele disse que cuidaria disso. Mal posso esperar para ver meu irmão. Ele virá para a formatura da minha irmã e isso é muito legal.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
9 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Hoje é a noite do baile de formatura. E estou sentado no meu quarto. Ontem foi difícil, porque eu não conhecia ninguém, uma vez que todos os meus amigos e minha irmã não vão mais à escola.
O pior foi a hora do almoço, porque me lembrou de quando todos estavam com raiva de mim por causa de Mary Elizabeth. Nem consegui comer meu sanduíche, e minha mãe fez o meu preferido. Acho que ela sabia que eu ficaria triste com a partida de todos.
As salas pareciam diferentes. E os calouros estavam agindo de forma diferente porque agora são veteranos. Tinham até camisetas. Não sei quem planeja essas coisas.
Tudo o que consigo pensar sobre isso é o fato de que Sam estará partindo em duas semanas para ir à Penn State. E Mary Elizabeth vai estar ocupada com o namorado. E minha irmã vai estar ocupada com o namorado. E Alice e eu não somos íntimos. Sei que Patrick estará por perto, mas tenho medo de que talvez, sem estar triste, ele não queira passar o tempo comigo. Racionalmente, eu sei que estou errado, mas é assim que sinto às vezes. Então, a única pessoa que terei para conversar é meu psiquiatra, e essa ideia não me agrada justo agora, porque ele fica me perguntando sobre quando eu era mais novo, e ele está começando a me deixar esquisito.
Ainda bem que tenho muito dever de casa e não tenho muito tempo para pensar.
Tudo o que eu espero é que esta noite seja ótima para as pessoas que merecem que seja ótima. O namorado da minha irmã me mostrou seu álbum, e ele estava usando um fraque branco por cima de um terno preto, o que me pareceu inadequado por alguma razão. Sua “faixa de cintura” (não sei como se chama isso) combinava com o vestido da minha irmã, que era azul pálido e decotado. Isso me fez lembrar daquelas revistas. Tenho de parar de divagar desse jeito. Muito bem.
Tudo o que eu espero é que minha irmã se sinta bonita e que o novo namorado a faça se sentir bonita. Espero que Craig não faça Sam sentir que seu baile não é especial só porque ele é mais velho. Espero o mesmo para Mary Elizabeth com Peter. Espero que Brad e Patrick decidam reatar e dancem na frente de toda a escola. E que Alice seja secretamente lésbica e esteja apaixonada por Nancy, namorada de Brad (e vice-versa), e assim ninguém vai ficar mal. Espero que o DJ seja tão bom como disseram que eu era na sexta-feira passada. E espero que os retratos de todos fiquem ótimos, não se tornem velhas fotografias e que ninguém tenha um acidente de carro.
É só isso o que eu espero.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
10 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Vim da escola para casa e minha irmã ainda dormia por causa da festa pós-baile que a escola organizou. Telefonei para Patrick e Sam, mas eles também estavam dormindo. Patrick e Sam têm um telefone sem fio cuja bateria está sempre falhando, e a mãe de Sam parecia uma mãe dos quadrinhos do Charlie Brown. Uá, uá… Uou.
Tive duas provas finais hoje. Uma de biologia, em que acho que me saí muito bem. A outra da aula de Bill. A final era sobre O grande Gatsby. A única coisa difícil foi o fato de que ele tinha me dado o livro para ler há muito tempo e tive dificuldades para me lembrar.
Depois que entreguei a prova, perguntei a Bill se ele queria que eu escrevesse um trabalho sobre The Fountainhead, porque eu disse a ele que tinha terminado de ler, e ele não me disse para fazer nada. Ele disse que não seria justo me fazer escrever outro trabalho quando eu tinha tantas provas finais para fazer esta semana. Em vez disso, ele me convidou para passar a tarde de sábado em sua casa na cidade com a namorada e ele, o que me pareceu divertido.
Então, na sexta-feira, vou ver Rocky Horror. Depois, no sábado, vou à casa de Bill. E no domingo vou à formatura de todo mundo e passar algum tempo com meu irmão e toda a família, por causa de minha irmã. Depois eu provavelmente vou para a casa de Sam e Patrick comemorar a formatura deles. Depois terei mais dois dias de escola, o que não faz sentido, porque todas as minhas provas já terão acabado. Mas eles planejaram algumas atividades. Pelo menos foi o que eu soube.
Estou planejando tanto porque a escola é terrivelmente solitária. Acho que já disse isso antes, mas está ficando mais difícil a cada dia. Tenho duas provas finais amanhã. História e datilografia. Depois, na sexta, tenho provas finais de todas as outras matérias, como educação física e trabalhos manuais. Não sei se serão provas finais de verdade nessas matérias. Especialmente trabalhos manuais. Acho que o Sr. Callahan só vai tocar alguns de seus velhos discos para nós. Foi o que ele fez quando tivemos as férias de meio de ano, mas não seria a mesma coisa sem Patrick fazendo dublagem. Aliás, fui perfeito em minha prova final de matemática na semana passada.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
13 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Cheguei agora da casa de Bill. Não tinha escrito de manhã para você sobre a noite passada porque tive de ir para a casa de Bill.
Na noite passada, Craig e Sam terminaram.
Foi muito triste ver aquilo. Nos últimos dias, tenho ouvido muita coisa sobre o baile de formatura, e graças àqueles lugares que fazem revelação de filme em vinte e quatro horas, eu vi como todos estavam lá. Sam parecia bonita. Patrick estava elegante. Mary Elizabeth, Alice e o namorado de Mary Elizabeth pareciam ótimos, todos. A única coisa é que Alice usou um desodorante com um vestido sem alça, e ele aparecia. Não acho que esse tipo de coisa tenha importância, mas é possível que Alice tenha ficado paranoica com isso a noite toda. Craig também estava elegante, mas usava um terno, em vez de smoking. Não sei por que eles terminaram.
Na verdade, o baile deve ter sido muito legal. A limusine era mesmo ótima, e o motorista deixou todo mundo chapado, o que tornou a caríssima viagem ainda melhor. O nome dele era Bill. A música do baile veio de uma banda cover muito ruim chamadaThe Gypsies of the Allegheny, mas o baterista era bom, então todos se divertiram dançando. Patrick e Brad nem sequer olharam um para o outro, mas Sam disse que Patrick estava bem.
Depois do baile, minha irmã e o namorado foram para a festa que a escola tinha organizado. Aconteceu na boate mais popular da cidade. Ela disse que foi muito divertido ver todos vestidos daquele jeito e dançando boa música tocada por um DJ, em vez de os Gypsies of the Allegheny. Teve até um comediante fazendo imitações. A única coisa chata é que, depois que você entrasse, não podia sair e voltar. Acho que os pais pensaram que isso manteria os garotos longe de problemas. Mas ninguém pareceu se importar. Estavam se divertindo tanto e bastava encher a cara de bebida.
Quando a festa terminou, eram umas sete da manhã e todos foram para o Big Boy comer panquecas e bacon.
Perguntei a Patrick como tinha sido a festa depois do baile, e ele disse que se divertiu muito. Disse que Craig tinha alugado um quarto de hotel para todos, mas só Craig e Sam foram. Na verdade, Sam também queria ir para a festa pós-baile que a escola tinha organizado, mas Craig ficou com muita raiva porque já havia pago pelo hotel. Foi por isso que eles terminaram.
Aconteceu ontem, na casa de Craig, depois do Rocky Horror. Como eu disse, o namorado de Mary Elizabeth, Peter, é muito amigo de Craig, e ele se meteu nas coisas. Acho que ele realmente gosta muito de Mary Elizabeth, e passou a gostar muito de Sam, porque foi ele quem provocou tudo. Ninguém havia suspeitado disso.
Basicamente, Craig estava enganando a Sam desde que começaram a sair. E quando eu digo enganando, não quero dizer que ele bebia e saía por aí com uma garota e depois se arrependia. Foram várias garotas. Várias vezes. Bêbado e sóbrio. E acho que ele nunca se arrependeu.
O motivo para que Peter não dissesse nada no início foi o fato de que ele não conhecia ninguém. E ele não conhecia Sam. Ele pensava que ela era uma pateta de segundo grau porque era o que Craig dizia a ele.
De qualquer forma, depois que ele conheceu a Sam, Peter ficou dizendo a Craig que ele tinha de contar a verdade porque ela não era uma pateta do segundo grau. Craig prometia que ia contar, mas não cumpria a promessa. Sempre havia uma desculpa. Craig as chamava de “suas razões”.
“Não quero estragar o baile dela.”
“Não quero estragar a formatura dela.”
“Não quero estragar o show dela.”
E então, finalmente, Craig disse que não tinha sentido dizer nada a ela. Ela estava indo para a faculdade. Conheceria outro cara. Ele sempre era “seguro” com as outras garotas. Não havia motivo para se preocupar neste sentido. E por que não deixar que Sam tivesse boas lembranças de tudo? Porque ele realmente gostava de Sam e não queria ferir seus sentimentos.
Peter seguiu essa lógica, embora pensasse que estava errado. Pelo menos foi o que ele disse. Mas então, depois do show de ontem, Craig disse a ele que tinha saído com outra garota na tarde do baile. Foi aí que Peter disse a Craig que, se ele não contasse nada a Sam, ele próprio contaria. Bom, Craig não contou nada, e Peter ainda achava que não era problema dele, mas então ele ouviu Sam falando na festa. Ela falava com Mary Elizabeth de como Craig era “o homem da vida dela” e de como ela estava pensando em uma maneira de continuar o namoro à distância enquanto estivesse na faculdade. Por cartas.
Ele se ergueu para Craig e disse: “Você vai contar a ela agora ou eu mesmo conto.”
E aí Craig levou Sam para o quarto. Ficaram lá dentro durante algum tempo. Depois Sam saiu do quarto direto para a porta da frente, soluçando em silêncio. Craig não foi atrás dela. Essa foi provavelmente a pior parte. Não que ele devesse ter tentado reatar com ela, mas ele devia ir atrás dela mesmo assim.
Tudo o que eu sei é que a Sam ficou arrasada. Mary Elizabeth e Alice foram atrás dela para ver se estava tudo bem. Eu teria ido também, mas Patrick segurou meu braço e me fez ficar. Ele queria saber o que estava acontecendo, eu acho, ou talvez imaginasse que Sam estaria melhor com companhia feminina.
Contudo, fico satisfeito de ter ficado porque acho que nossa presença evitou uma briga violenta entre Craig e Peter. Porque estávamos lá, só o que eles fizeram foi gritar um com o outro. Foi aí que eu soube da maior parte dos detalhes do que estou escrevendo para você.
Craig teria dito:
“Foda-se, Peter! Vai se foder!”
E Peter teria dito:
“Não tenho culpa de você ficar trepando por aí desde o início! Na tarde do baile de formatura dela?! Você é um canalha! Está me ouvindo? Um merda de um canalha!”
E coisas assim.
Quando as coisas pareciam que iam ficar violentas, Patrick se colocou entre os dois e, com minha ajuda, tirou Peter do apartamento. Quando estávamos do lado de fora, as garotas saíram. Então Patrick e eu fomos de carro levar Peter em casa. Ele ainda estava agitado, então “desabafou” sobre Craig. Foi aí que eu soube do resto dos detalhes da história que estou lhe contando. Finalmente, deixamos Peter em casa e ele nos fez prometer que nos certificaríamos de que Mary Elizabeth não pensasse que ele a estava enganando, porque ele não estava. Não queria ser julgado “culpado por cumplicidade” com aquele “estúpido”.
Nós prometemos e fomos para seu prédio.
Patrick e eu não tínhamos certeza do quanto Craig havia contado a Sam. Achamos que ele deu uma versão “atenuada” da verdade. O bastante para que ela fosse embora. Mas não o suficiente para que ela tivesse dúvidas sobre tudo isso. Talvez fosse melhor saber toda a verdade. Eu sinceramente não sei.
Então fizemos um pacto: não contaríamos nada a ela, a não ser que descobríssemos que Craig tinha feito com que parecesse “não ser nada demais” e Sam estivesse disposta a perdoá-lo. Espero que isso não aconteça. Espero que Craig tenha contado a ela o bastante para ela terminar.
Fomos de carro a todos os lugares onde pensávamos que encontraríamos as meninas, mas não conseguimos achá-las, e Patrick imaginou que elas provavelmente estariam dirigindo por aí, tentando fazer com que a Sam “esfriasse a cabeça”.
Então, Patrick me deixou em casa. Ele disse que me telefonaria amanhã, quando soubesse de alguma coisa.
Eu me lembro de ter ido dormir naquela noite, e percebi uma coisa. Algo que eu acho que é importante. Percebi que durante toda a noite eu não fiquei feliz com o rompimento de Craig e Sam. Nem um pouco.
Nunca me passou pela cabeça que isso poderia significar a Sam começando a gostar de mim. Eu só me preocupava com o fato de que Sam estava muito magoada. E acho que percebi, naquele momento, que eu realmente a amava. Porque não havia nada a ganhar, mas isso não importava.
Foi duro ir até a casa de Bill naquela tarde, porque eu não tinha recebido um telefonema de Patrick. E eu estava preocupado com a Sam. Liguei para lá, mas ninguém atendeu.
Bill parecia diferente sem terno. Estava usando sua velha camiseta da faculdade. Que era a Brown. A namorada dele usava sandálias e um belo vestido florido. E tinha pelos nas axilas. Não estou brincando não!
Eles pareciam muito felizes juntos. E fiquei contente pelo Bill.
A casa dele tinha um monte de móveis, era muito confortável. Eles tinham um monte de livros e eu passei uma meia hora perguntando sobre eles. Havia também uma foto de Bill e a namorada quando estavam juntos na Brown durante a faculdade. Bill tinha o cabelo mais comprido naquela época.
A namorada de Bill preparou o almoço enquanto Bill fez a salada. Eu me sentei na cozinha, bebendo um refrigerante, e observei os dois. O almoço foi um prato de espaguete, porque a namorada de Bill não come carne. E Bill agora não come mais carne também. A salada tinha uma imitação de bacon, porque o bacon é a única coisa de que eles sentem falta.
Eles tinham uma ótima coleção de discos de jazz, que ficaram tocando durante todo o almoço. Depois de algum tempo, abriram uma garrafa de vinho branco e me deram outro refrigerante. Depois começamos a conversar.
Bill me perguntou sobre The Fountainhead, e eu respondi a ele, me certificando de que estava sendo um filtro.
Depois ele me perguntou como tinha sido meu primeiro ano no segundo grau, e eu contei a ele, tomando cuidado para incluir todas as histórias em que eu “participei”.
Depois, ele me perguntou sobre garotas, e eu disse a ele que amava Sam de verdade, e como eu gostaria que a autora de The Fountainhead tivesse escrito sobre como eu percebi que a amava.
Depois que terminei, Bill ficou em silêncio. Ele pigarreou.
― Charlie… quero agradecer a você.
― Por quê? ― perguntei.
― Porque foi uma experiência maravilhosa dar aulas para você.
― Oh… fico feliz com isso.
Eu não sabia o que dizer.
Bill fez uma longa pausa e, depois sua voz parecia a do meu pai quando queria ter uma conversa séria:
― Charlie ― disse ele. ― Você sabe por que eu lhe dei tanto trabalho extra?
Sacudi a cabeça em negativa. Era a expressão em seu rosto. Aquilo me silenciou.
― Charlie, você sabe o quanto é inteligente?
Sacudi a cabeça novamente. Ele estava falando a sério. Foi estranho.
― Charlie, você é uma das pessoas mais dotadas que já conheci. E não digo isso em relação aos outros alunos. Quero dizer em relação a qualquer pessoa que eu tenha conhecido. É por isso que eu lhe dei tanto trabalho extra. E me pergunto se você teve consciência disso.
― Acho que sim. Não sei bem.
Eu me sentia muito estranho. Não sei onde isso ia levar. Eu só escrevia trabalhos.
― Charlie. Por favor, não me interprete mal. Não estou querendo que você fique sem graça. Só quero que você saiba que é muito especial… e o único motivo para eu lhe dizer isso é que não conheço mais ninguém assim.
Olhei para ele. E depois parei de me sentir estranho. Tive vontade de chorar. Ele estava sendo tão legal comigo e, pelo modo como a namorada dele me olhava, eu vi que isso significava muito para ele. E não sei por que era assim.
― Então, quando o ano letivo terminar, e eu não estiver mais dando aulas a você, quero que saiba que, se precisar de alguma coisa, ou quiser conhecer outros livros, ou quiser me mostrar qualquer coisa que tenha escrito, ou outra coisa qualquer, você sempre poderá me procurar como amigo. Eu o considero um amigo, Charlie.
Comecei a chorar um pouco. Acho que a namorada dele também. Mas não Bill. Ele parecia muito firme. Só me ocorreu dar um abraço nele. Mas nunca fiz isso antes, e acho que Patrick, as garotas e a família não contam. Não disse nada por algum tempo porque não sabia o que dizer. Então, finalmente, eu disse:
― Você é o melhor professor que eu já tive.
E ele disse:
― Obrigado.
E foi isso. Bill não insistiu que eu o procurasse no ano que vem se precisasse de alguma coisa. Não me perguntou por que eu estava chorando. Apenas me deixou ouvir o que tinha dito à minha maneira e deixar o barco correr. Essa foi provavelmente a melhor parte.
Alguns minutos depois, era hora de eu ir embora. Não sei quem decide essas coisas. Elas apenas acontecem.
Então fui até a porta e a namorada de Bill me abraçou ao se despedir, o que foi muito legal, considerando que eu só a conheci hoje. Depois Bill estendeu a mão e eu a peguei. Demos um aperto de mãos. E eu lhe dei um abraço rápido antes de dizer “Até logo”.
Quando estava indo para casa, só conseguia pensar na palavra “especial”. E pensei que a última pessoa que me disse isso foi a tia Helen. Foi muito bom ter ouvido isso novamente. Porque eu acho que todos nós nos esquecemos às vezes. E eu acho que todo mundo é especial à sua própria maneira. É o que eu penso.
Meu irmão ficou em casa esta noite. E tem a formatura de todo mundo amanhã. Patrick ainda não ligou. Eu telefonei para ele, mas não havia ninguém em casa. Então decidi sair e comprar alguns presentes para a formatura. Só tive tempo para fazer isso agora.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
16 de junho de 1992
 
Querido amigo,
Fui para a escola de ônibus. Hoje foi o último dia de aula para mim. E estava chovendo. Quando vou de ônibus, em geral me sento no meio porque soube que quem senta na frente é nerd, quem senta atrás é arruaceiro e os dois me deixam nervoso. Não sei o que eles chamam de “arruaceiro” em outras escolas.
De qualquer modo, hoje decidi sentar na frente, com as pernas esticadas no banco. Meio deitado, com as costas apoiadas na janela. Fiz isso para ver as outras crianças no ônibus. Ainda bem que o ônibus da escola não tem cinto de segurança ou eu não poderia ter feito isso.
A única coisa que percebi era como todo mundo parecia diferente. Quando éramos todos pequenos, costumávamos cantar canções no ônibus no caminho de casa no último dia de aula. A música favorita era uma do Pink Floyd, que mais tarde descobri se chamar “Another Brick in the Wall”. Mas tinha outra canção que eu gostava ainda mais porque terminava com uma promessa. Era mais ou menos assim…
 
Nunca mais lápis
nunca mais livros
nunca mais a censura nos olhos dos professores.
Quando o professor tocar a sineta
feche os livros e pernas pra que te quero!
 
Quando terminávamos, olhamos o motorista do ônibus em um momento de tensão. Depois caímos na gargalhada, porque sabíamos que poderíamos ter problemas por estar falando dos professores, mas éramos muitos e isso evitaria alguma represália. Éramos novos demais para saber que o motorista do ônibus não se importava com a nossa canção. Tudo o que ele queria fazer era ir para casa depois do trabalho. E talvez se recuperar dos drinques que bebeu no almoço. Pensando nisso agora, não importa. Os nerds e arruaceiros eram a mesma coisa.
Meu irmão chegou no sábado à noite. E ele parecia bem diferente dos garotos do ônibus escolar do início do ano. Ele tinha barba! Fiquei tão feliz! Ele também sorria de forma diferente e estava mais “cortês”. Sentamos para jantar e todo mundo fez perguntas sobre a faculdade. Papai perguntou sobre futebol. Mamãe perguntou sobre as aulas. Eu perguntei sobre todas as histórias divertidas. Minha irmã fez perguntas sobre como era “realmente” a faculdade e se teria de fingir que não era “carne nova”. Não entendi o que quis dizer, mas acho que significa que você fica mais gordo.
Pensei que meu irmão fosse falar sem parar de si mesmo por um longo tempo. Ele faria isso independentemente de ter havido um grande jogo no segundo grau, ou o baile de formatura, ou qualquer coisa. Mas ele parecia muito mais interessado no que nós estávamos fazendo, especialmente minha irmã com sua formatura.
Então, enquanto eles falavam, de repente me lembrei do homem do canal de esportes da tevê e do que ele disse sobre o meu irmão. Fiquei muito empolgado. E contei a toda minha família. E foi isso que aconteceu:
Meu pai disse:
― Ei! Que tal isso?
― É mesmo?! ― falou meu irmão.
― É. Eu falei com ele.
― Ele disse alguma coisa boa? ― meu irmão perguntou.
― Qualquer notícia é boa notícia. ― Não sei onde meu pai aprendeu essas coisas.
Meu irmão continuou:
― O que ele disse?
― Bom, acho que ele disse que os esportes universitários representam uma pressão muito grande para os estudantes que os praticam. ― Meu irmão ficou assentindo. ―Mas ele disse que isso forma o caráter. E disse que a Penn State estava procurando gente realmente boa. E falou em você.
― Ei! Que tal isso? ― comentou meu pai.
Meu irmão disse:
― É mesmo?!
― É. Eu falei com ele.
― Quando foi que você fez isso? ― perguntou meu irmão.
― Algumas semanas atrás.
E então eu gelei, porque de repente me lembrei da outra parte da história. O fato de que eu o encontrei no parque à noite. E o fato de que dei a ele um dos meus cigarros. E o fato de que estava tentando tocar em mim. Fiquei sentado ali, esperando que a conversa se encerrasse.
― Onde foi que você o conheceu, querido?
A sala ficou terrivelmente silenciosa. E fiz a melhor imitação que pude de mim mesmo quando não me lembrava de alguma coisa. E isso era o que se passava na minha cabeça: Tudo bem… ele foi à escola para conversar com a turma… não… minha irmã saberia que eu estou mentindo… eu o conheci no Big Boy… ele estava com a família… não… meu pai ralharia comigo por ter incomodado o “pobre homem”… ele disse isso no noticiário… mas eu disse que falei com ele… por ai…
― No parque. Eu estava lá com Patrick ― eu disse.
― Ele estava com a família? Você incomodou o pobre homem? ― disse meu pai.
― Não. Ele estava sozinho.
Isso foi o suficiente para o meu pai e todos os outros, e eu não tive de mentir. Felizmente, a atenção foi desviada de mim quando minha mãe disse o que gostava de dizer quando nos reuníamos para comemorar alguma coisa:
― Quem está com vontade de tomar sorvete?
Todos estavam, exceto minha irmã. Acho que ela estava preocupada com a “carne nova”.
A manhã seguinte começou cedo. Eu ainda não sabia de Patrick e Sam, nem de ninguém, mas eu sabia que os veria na formatura, então tentei não me preocupar muito com isso. Todos os meus parentes, inclusive a família de meu pai, de Ohio, chegariam aqui pelas dez da manhã. As duas famílias não se gostam muito, exceto pelos primos mais novos, porque não conhecemos ninguém muito bem.
Fizemos um grande brunch com champanhe e, da mesma forma que no ano passado para a formatura do meu irmão, minha mãe deu ao pai dela (meu avô) suco de maçã gaseificado, em vez de champanhe, porque ela não queria que ele ficasse bêbado e fizesse uma cena. E ele disse a mesma coisa que disse no ano passado:
― Esse champanhe é bom.
Não sei se ele sabe a diferença, porque é um bebedor de cerveja. Às vezes, uísque.
Lá pelo meio-dia e meia, o brunch tinha terminado. Todos os primos dirigiriam os carros, porque os adultos ainda estavam bêbados demais para dirigir até a formatura. Exceto meu pai, porque ele estava ocupado demais filmando todo mundo em vídeo com uma câmera que ele alugou na locadora.
“Por que comprar uma câmera se só vou precisar dela três vezes por ano?”
Então minha irmã, meu irmão, meu pai e eu fomos em carros diferentes para que ninguém ficasse deslocado. Fui com todos os meus primos de Ohio, que logo acenderam um baseado e passaram adiante. Eu não fumei nada, porque não estava com vontade, e eles disseram o que sempre dizem:
― Charlie, você é um veadinho.
Então, todos os carros saíram do estacionamento e nós partimos. E minha irmã gritou para meu primo Mike para fechar a janela enquanto estivesse dirigindo para não desfazer o cabelo dela.
― Eu estou fumando um cigarro ― foi a resposta dele.
― Não pode esperar dez minutos? ― disse minha irmã.
― Mas a música é ótima ― foi a resposta final.
Então, enquanto meu pai pegava a câmera de vídeo na mala do carro e meu irmão estava falando com uma das garotas da formatura que era um ano mais velha e “parecia ótima”, minha irmã foi até minha mãe para pegar a bolsa dela. O melhor sobre a bolsa da minha mãe é que não importa o que você precise a qualquer hora, ela terá. Quando eu era pequeno, costumava chamá-la de kit de primeiros socorros, porque tudo de que precisávamos estava lá dentro. Ainda não consigo entender como minha mãe faz isso.
Depois de se maquiar, minha irmã seguiu a trilha dos chapéus de formatura até o campo e nós seguimos nosso caminho para a arquibancada. Eu me sentei entre minha mãe e meu irmão, porque meu pai estava fora, pegando um ângulo melhor da câmera. E minha mãe tentava fazer meu avô se calar, porque ele não parava de comentar sobre o lugar. Quando ela conseguiu, mencionou minha história sobre o homem do canal de esportes e a conversa sobre meu irmão. Isso fez meu avô chamar meu irmão para conversar com ele. Foi inteligente da parte de minha mãe, porque meu irmão é a única pessoa que consegue fazer meu avô parar de fazer escândalo, porque ele é franco demais. Depois da história, foi isso o que aconteceu…
― Meu Deus. Olhe essas arquibancadas. Quanta gente de cor…
Meu irmão o interrompeu:
― Tudo bem, vovô. Vamos fazer o seguinte. Se você nos constranger mais uma vez, vou levá-lo de volta para o asilo e você nunca mais verá sua neta fazendo um discurso.― Meu irmão é muito duro.
― Mas então você também não vai ver grande coisa. ― Meu avô também sabia ser durão.
― É, mas meu pai está gravando. E posso ver a fita depois, e você não. Não é?
Meu avô tem um sorriso muito estranho. Especialmente quando alguém o vence. Ele não disse mais nada sobre isso. Só começou a falar de futebol e não mencionou nada sobre meu irmão jogar em um time com negros. Você não imagina como foi ruim no ano passado, quando meu irmão estava se formando, em vez de estar na arquibancada para fazer meu avô parar.
Enquanto eles falavam de futebol, fiquei procurando por Patrick e Sam, mas tudo o que vi foram os chapéus de formatura à distância. Quando a música começou, os formandos caminharam para as cadeiras dobráveis colocadas no campo. Foi quando finalmente vi Sam andando atrás de Patrick. Fiquei tão aliviado. Não sei dizer se estava feliz ou triste, mas foi suficiente vê-la e saber que estava ali.
Quando todos se sentaram nas cadeiras, a música parou. E o Sr. Small se levantou e fez um discurso sobre como aquela turma era maravilhosa. Ele mencionou algumas realizações que a escola teve e destacou o quanto precisaram do apoio do Community Day Bake Sale para criar um novo laboratório de informática. Depois ele apresentou a presidente da turma, que fez um discurso. Não sei o que os presidentes de turma fazem, mas a garota fez um discurso muito bom.
Depois foi a vez de os cinco melhores alunos discursarem. Era uma tradição da escola. Minha irmã foi a segunda da turma dela, então foi a quarta a falar. A melhor aluna é sempre a última a falar. Depois o Sr. Small e o vice-diretor que Patrick jurou que era gay, entregariam os diplomas.
Os três primeiros discursos foram muito parecidos. Todos citaram canções da música pop que tinham alguma coisa a ver com o futuro. E durante todos os discursos eu via as mãos da minha mãe. Ela estava apertando as mãos com uma força cada vez maior.
Quando anunciaram o nome da minha irmã, minha mãe começou a aplaudir. Foi ótimo ver minha irmã no pódio, porque meu irmão foi o 223º da turma, por aí, e assim não fez discurso nenhum. E talvez eu esteja sendo parcial, mas quando minha irmã citou uma música pop e falou do futuro, pareceu muito bom. Olhei para o meu irmão e ele olhou para mim. E nós dois sorrimos. Depois ele olhou para minha mãe e ela estava chorando muito, então meu irmão e eu seguramos as mãos dela. Ela olhou para nós e sorriu, chorando ainda mais. Depois nós dois apoiamos a cabeça nos ombros dela, como um abraço de lado, o que fez com que ela chorasse mais ainda. Ou talvez ela tenha deixado o choro sair mais. Não tenho certeza. Mas ela apertou nossa mão e disse “Meus meninos”, com muita suavidade, e voltou a chorar.
Eu amo muito minha mãe. Não me importo se o que digo é piegas. Acho que, no meu aniversário, vou comprar um presente para ela. Acho que devia ser uma tradição. Os filhos ganham presentes de todos e compram um presente para sua mãe porque ela estava lá também. Acho que isso seria legal.
Quando minha irmã terminou o discurso, todos aplaudimos e gritamos, mas ninguém aplaudiu ou gritou mais do que meu avô. Ninguém.
Não me lembro do que a primeira aluna disse, a não ser que ela citou Henry David Thoreau, em vez de uma música pop.
Depois o Sr. Small subiu no palco e pediu a todos que se abstivessem de aplaudir até que todos os nomes fossem lidos e todos os diplomas entregues. Devo dizer que isso não deu certo no ano passado.
Então eu vi minha irmã pegar o diploma e minha mãe chorar novamente. E depois vi Mary Elizabeth. E vi Alice. E vi Patrick. E vi Sam. Foi um grande dia. Até quando eu vi Brad. Ele parecia bem.
Encontramos minha irmã no estacionamento e o primeiro a abraçá-la foi meu avô. Ele é um sujeito muito orgulhoso. Todos disseram quanto adoraram o discurso da minha irmã, mesmo que não tivessem gostado. Depois vimos meu pai atravessar o estacionamento, com a câmera de vídeo acima da cabeça, triunfante. Acho que ninguém abraçou minha irmã por mais tempo do que meu pai. Olhei em torno, procurando por Sam e Patrick, mas não os encontrei em lugar nenhum.
No caminho de casa, para a festa, meus primos de Ohio acenderam outro baseado. Desta vez eu dei um tapa, mas eles continuaram a me chamar de veadinho. Não sei por quê. Talvez seja como se chama primo em Ohio. Isso e as piadas que contam.
― O que é que tem trinta e duas pernas e um dente?
― Não sei ― respondemos.
― Uma fila de desempregados.
Coisas assim.
Quando chegamos em casa, meus primos de Ohio foram direto para o bar, porque as formaturas parecem ser uma ocasião em que ninguém pode beber. Pelo menos foi assim no ano passado e este ano. Eu me pergunto como será minha formatura. Parece muito distante.
Então minha irmã passou a primeira hora da festa abrindo todos os presentes, e seu sorriso aumentava com cada cheque, suéter ou nota de cinquenta dólares. Ninguém na nossa família é rico, mas parece que todos economizam só para esse tipo de acontecimento, e todos fingimos que somos ricos por um dia.
As únicas pessoas que não deram dinheiro nem um suéter à minha irmã foram meu irmão e eu. Meu irmão prometeu levá-la um dia para comprar coisas para a faculdade como sabonetes, que ele pagaria, e eu comprei para ela uma casinha entalhada em pedra, pintada na Inglaterra. Disse a ela que queria dar alguma coisa que a fizesse se sentir como se estivesse em casa depois que fosse embora. Minha irmã me deu um beijo no rosto por causa disso.
Mas a melhor parte da festa aconteceu quando minha mãe chegou para mim e disse que eu tinha de atender o telefone. Fui para lá.
― Alô?
― Charlie?
― Sam!
― Quando é que você vem? ― perguntou ela.
― Agora! ― eu disse.
E então meu pai, que estava bebendo um uísque, resmungou:
― Você não vai a parte alguma enquanto seus primos não forem embora. Entendeu?
― Ah, Sam… tenho de esperar meus primos saírem ― eu disse.
― Tudo bem… vamos ficar aqui até as sete. Depois telefonamos para você de onde estivermos.
Sam parecia feliz.
― Tudo bem, Sam. Parabéns!
― Obrigada, Charlie. Tchau.
― Tchau.
Desliguei o telefone.
Juro para você que pensei que meus primos jamais iriam embora. A cada vez que contavam uma história. A cada pedaço de carne de porco que comiam. A cada fotografia que olhavam e a cada vez que eu ouvia “quando você era desse tamanho”, com o gesto apropriado. Foi como se o tempo tivesse parado. Não é que eu me importasse com as histórias, porque eu não me importava. Nem era a carne de porco, que estava muito boa. É que eu queria ver Sam.
Lá pelas 21:30, todos estavam empanturrados e bêbados. Às 21:45, os abraços terminaram. Às 21:50, a entrada de carros estava vazia. Meu pai me deu vinte dólares e as chaves do carro dele, dizendo: “Obrigado por ficar aqui. Significou muito para mim e para minha família.” Ele estava meio bêbado, mas foi sincero. Sam havia me dito que eles estavam indo para uma boate no centro da cidade. Então coloquei os presentes de todos na mala, entrei no carro e parti.
Tem uma coisa que quero dizer sobre o túnel que leva ao centro da cidade. Ele é glorioso à noite. Simplesmente glorioso. Você começa de um lado da montanha, e é escuro, e o rádio só tem estática. Quando entra no túnel, o vento o suga para fora e você vê as luzes acima com os olhos semicerrados. Quando se acostuma com as luzes, você pode ver o outro lado na distância à medida que o som do rádio vai desaparecendo, porque as ondas não conseguem alcançá-lo. Depois você está no meio do túnel e tudo se transforma em um sonho tranquilo. À medida que vê a saída se aproximar; sabe que não pode chegar lá rápido o bastante. E finalmente, bem quando você acha que nunca sairá de lá, vê a saída bem diante de você. E o rádio volta a ficar mais barulhento. E o vento está à espera. E você voa do túnel para a ponte. E lá está. A cidade. Um milhão de luzes e prédios e tudo parece tão empolgante como da primeira vez que você a viu. É uma chegada realmente fantástica.
Depois de cerca de uma hora procurando pela boate, eu finalmente vi Mary Elizabeth com Peter. Estavam bebendo uísque com soda, que Peter comprou porque era mais velho e tinha um carimbo na mão. Parabenizei Mary Elizabeth e perguntei onde estavam todos. Ela me disse que Alice estava ficando ligada no banheiro das mulheres e Sam e Patrick estavam na pista de dança. Disse para me sentar até que eles voltassem, porque ela não sabia onde exatamente eles estavam. Então eu me sentei e ouvi Peter perguntar a Mary Elizabeth sobre os candidatos democratas. E, novamente, o tempo pareceu parar. Eu queria desesperadamente ver a Sam.
Depois de umas três músicas, Sam e Patrick voltaram completamente cobertos de suor.
― Charlie!
Eu me levantei e nós nos abraçamos como se não nos víssemos há meses. Considerando tudo o que aconteceu, acho que isso faz sentido. Depois disso, Patrick se deitou em Mary Elizabeth e Peter como se eles fossem um sofá. Depois ele pegou o drinque de Mary Elizabeth e o bebeu.
― Ei, imbecil! ― Foi a resposta..
Acho que ele estava bêbado, embora não estivesse bebendo ultimamente, mas Patrick faz esse tipo de coisa sóbrio, então é difícil dizer.
Foi aí que Sam pegou minha mão.
― Eu adoro essa música!
Ela me levou para a pista de dança. E começou a dançar. E eu comecei a dançar. E era uma música rápida, então eu não era muito bom, mas ela não parecia se importar. Ficamos só dançando e foi o bastante. A música terminou e, depois, veio uma lenta. Ela olhou para mim. Eu olhei para ela. Depois ela pegou minhas mãos e me puxou para dançar. Também não sei dançar lento, mas sei como me balançar.
Seu hálito cheirava a suco de framboesa e vodca.
― Procurei por você no estacionamento hoje.
Tomara que meu hálito estivesse cheirando a pasta de dentes.
― Eu procurei por você também.
Então ficamos em silêncio pelo resto da música. Ela se aproximou mais de mim. Eu a abracei mais forte. E continuamos dançando. Foi o único momento em todo o dia que eu queria que o tempo parasse. E que isso durasse muito.
Depois da boate, fomos para o apartamento de Peter e dei os presentes de formatura a todos. Dei a Alice um livro, A noite dos mortos-vivos, que ela adorou, e a Mary Elizabeth uma cópia de Minha vida de cachorro, em vídeo, com legendas, que ela adorou.
Depois dei a Patrick e a Sam os presentes deles. Eu tinha feito um embrulho especial. Usei papéis de histórias em quadrinhos porque são coloridos. Patrick os rasgou completamente, ao contrário de Sam, que arrancou a fita adesiva. E eles olharam o que estava dentro de cada caixa.
Dei a Patrick Pé na estrada, Naked Lunch, O estrangeiro, Este lado do paraíso, Peter Pane A Separate Peace.
Dei a Sam O sol nasce para todos, O apanhador no campo de centeio, O grande Gatsby, Hamlet, Walden e The Fountainhead.
Sob os livros havia um cartão que eu escrevi usando a máquina que Sam me deu. Nos cartões, eu dizia que eram os meus próprios exemplares de meus livros favoritos, e que eu queria que Sam e Patrick ficassem com eles porque eram as duas pessoas de quem mais gostava no mundo.
Quando eles começaram a ler, todos ficaram em silêncio. Ninguém sorriu, ou chorou, ou fez nada. Ficamos só olhando de um para o outro. Eles sabiam o que significava o cartão que eu escrevi. E eu sabia que significava muito para eles.
― O que dizem os cartões? ― perguntou Mary Elizabeth.
― Você se importa, Charlie? ― perguntou Patrick.
Sacudi a cabeça em negativa e cada um deles leu o cartão enquanto eu enchia minha caneca de café com vinho branco.
Quando voltei, todos olharam para mim e eu disse:
― Vou sentir muito a falta de vocês. Espero que a faculdade seja maravilhosa.
E depois comecei a chorar, porque de repente percebi que todos eles iam embora. Acho que Peter me acha um tanto esquisito. Depois Sam se levantou e me levou para a cozinha, me dizendo no caminho que estava tudo bem. Quando chegamos à cozinha, eu estava um pouco mais calmo.
― Sabe que vou partir em uma semana, Charlie? ― disse Sam.
― Eu sei.
― Não comece a chorar de novo.
― Tudo bem.
― Estou com muito medo de ficar sozinha na faculdade.
― Está? ― perguntei.
Nunca havia pensado dessa forma antes.
― Então vamos fazer um trato. Quando a barra pesar na faculdade, eu ligo para você. E quando a barra pesar por aqui, você me liga.
― Podemos escrever cartas?
― É claro ― disse ela.
Então eu comecei a chorar novamente. Às vezes eu era uma verdadeira montanha-russa. Mas Sam era paciente.
― Charlie, eu vou voltar no final do verão, mas, antes que você pense nisso, vamos curtir essa última semana juntos. Todos nós. Tá bom?
Concordei com a cabeça e me acalmei.
Passamos o resto da noite bebendo e ouvindo música como sempre fizemos, mas desta vez foi na casa do Peter; e foi melhor do que na de Craig, porque Peter tinha discos melhores. Era cerca de uma da manhã quando de repente eu me lembrei de uma coisa.
― Ah, meu Deus! ― eu disse.
― O que foi, Charlie?
― Amanhã eu tenho aula!
Acho que eu não teria conseguido fazê-los rir mais.
Peter me levou até a cozinha para me fazer um café, então fiquei sóbrio para ir para casa de carro. Tinha bebido oito xícaras seguidas e estava preparado para dirigir por uns vinte minutos. O problema foi que, quando cheguei em casa, fiquei acordado por causa do café e não consegui pegar no sono. Na hora de ir para a escola, eu estava morto de cansaço. Felizmente todas as provas finais tinham acabado, e tudo o que fizemos o dia todo foi assistir a filmes. Não me lembro de ter dormido melhor na minha vida. Fiquei contente também porque a escola é muito solitária sem eles.
Hoje foi diferente porque eu não dormi, e não fui ver Sam e Patrick na noite passada porque eles tinham um jantar especial com os pais. E meu irmão tinha um encontro com uma das garotas que “pareciam ótimas” na formatura. Minha irmã estava ocupada com o namorado. E mamãe e papai ainda estavam cansados da festa de formatura.
Hoje a maioria dos professores só deixou os alunos sentados conversando depois que abrimos os livros. Sinceramente eu não conhecia ninguém, exceto talvez Susan, mas depois daquela vez no corredor ela me evitava mais do que nunca. Então eu não conversei com ninguém. A única aula boa foi a de Bill, porque eu conversei com ele. Foi difícil dizer adeus a ele depois que a aula terminou, mas ele disse que não era um adeus. Eu podia ligar para ele a qualquer hora no verão se quisesse conversar ou pegar algum livro emprestado, e isso fez com que eu me sentisse um pouco melhor.
Aquele garoto de dentes tortos chamado Leonard me chamou de “cachorrinho do Bill” no corredor depois da aula, mas eu não me importei, porque acho que ele me entendeu mal. Almocei do lado de fora, no banco onde eu costumava fumar. Depois que comi meu sanduíche, acendi um cigarro e tive uma certa esperança de que alguém me pedisse um, mas ninguém pediu.
Quando a última aula terminou, todos estavam gritando e fazendo planos para o verão. E todos esvaziaram os armários, jogando fora papéis velhos, anotações e livros no corredor. Quando cheguei ao meu armário, vi aquele garoto magrelo que tinha um armário ao lado do meu o ano todo. Eu nunca havia falado com ele antes.
Pigarreei e disse:
― Oi. Meu nome é Charlie.
E tudo o que ele disse foi:
― Eu sei.
Depois ele fechou o armário e se afastou.
Então eu abri meu armário, coloquei meus papéis e minhas coisas na mochila e andei pelo corredor sobre a confusão de papéis, livros e anotações até o estacionamento lá fora. Então, peguei o ônibus. Depois escrevi esta carta para você.
Estou muito feliz que as aulas tenham terminado. Quero passar muito tempo com todos antes que partam. Especialmente a Sam.
Aliás, terminei tirando A direto o ano todo. Minha mãe ficou muito orgulhosa e pendurou meu boletim na geladeira.
Com amor,
Charlie.
 
 
 
22 de junho de 1992
 
Querido amigo,
A noite anterior à partida de Sam toldou a semana inteira. Sam estava frenética, porque ela não só precisava passar algum tempo conosco, mas tinha de se preparar para a partida. Comprar coisas. Embalar coisas. Coisas assim.
Toda noite, todos nos reuníamos depois de Sam ter dito adeus a algum tio, ou ter tido outro almoço com sua mãe, ou ter feito mais compras de coisas que ia precisar na faculdade. Ela estava assustada, e foi somente quando tomou um gole de alguma coisa que estávamos bebendo e uma tragada no que estávamos fumando que se acalmou e voltou a ser a Sam.
A única coisa que realmente ajudou Sam durante toda a semana foi o almoço com Craig. Ela disse que queria vê-lo para ter algum tipo de “conclusão”. Eu acho que ela teve bastante sorte, porque Craig foi legal o suficiente para dizer que ela estava certa em ter rompido com ele. E que ela era uma pessoa especial. E que ele se lamentava e a queria bem. É estranho que as pessoas às vezes escolham ser generosas.
A melhor parte foi que Sam disse que não perguntou a ele sobre as garotas com quem ele podia estar saindo, embora quisesse saber. Ela não estava amarga. Mas estava triste. Era uma espécie de tristeza esperançosa. O tipo de tristeza que passa com o tempo.
Na noite antes de ela ir embora, fomos todos à casa de Sam e Patrick. Bob, Alice, Mary Elizabeth (sem Peter) e eu. Sentamos no tapete na sala de “jogos”, lembrando coisas: Lembra do show quando Patrick fez isso… ou lembra quando Bob fez aquilo… ou Charlie… ou Mary Elizabeth… ou Alice… ou Sam…
As piadas particulares não eram mais piadas. Tinham se tornado histórias. Ninguém se lembrou de nomes ou momentos ruins. E ninguém se sentiu triste, porque podíamos adiar a nostalgia para amanhã.
Depois de algum tempo, Mary Elizabeth, Bob e Alice saíram dizendo que voltariam na manhã seguinte para ver Sam partir. Então só ficamos eu, Patrick e Sam. Sentados ali. Sem dizer muita coisa. Até que começamos com nossas lembranças.
Lembra quando Charlie se aproximou de nós no jogo de futebol… e lembra quando Charlie esvaziou os pneus do carro do Dave no baile de ex-alunos… e lembram o poema… e a fita gravada… e o Punk Rocky em cores… e lembra quando nós nos sentimos infinitos…
Depois que eu disse isso, ficamos quietos e tristes. No silêncio, eu me lembrei daquela vez, a que eu nunca contei a ninguém. A vez em que estávamos andando. Só nós três. E eu estava no meio. Não me lembro de onde estávamos andando ou de onde vínhamos. Não me lembro em que época do ano foi. Só me lembro de andar entre eles e sentir pela primeira vez que eu pertencia a alguma coisa.
Finalmente, Patrick se levantou.
― Estou cansado, meninos. Boa-noite.
Depois ele mexeu no nosso cabelo e subiu para o quarto. Sam se virou para mim.
― Charlie, tenho de guardar algumas coisas na mala. Gostaria de ficar comigo mais um tempinho?
Eu assenti e fomos para o andar de cima.
Quando entramos, percebi como o quarto parecia diferente da noite em que Sam me beijou. Os quadros não estavam na parede, os armários estavam vazios, e tudo estava numa grande pilha sobre a cama. Disse a mim mesmo que não choraria, independentemente do que acontecesse, porque eu não quero que Sam fique ainda mais em pânico do que ela já está.
Então eu a observei fazer as malas, e tentei apreender o maior número de detalhes possível. Seus cabelos compridos, os pulsos e os olhos verdes. Queria me lembrar de tudo. Especialmente do som de sua voz, Sam falou de um monte de coisas, tentando se manter distraída. Falou que tinha uma longa viagem amanhã e que seus pais haviam alugado uma van. Ela se perguntava se ia gostar das aulas e qual seria sua área de especialização. Disse que não queria entrar para uma irmandade, mas estava ansiosa pelos jogos de futebol. Ela estava ficando cada vez mais triste. Finalmente, ela se virou.
― Por que você não me chamou para sair depois do que aconteceu com o Craig?
Eu me sentei no chão. Não sabia o que dizer. Ela falou com suavidade:
― Charlie… depois do que houve com Mary Elizabeth na festa, e nós dançando na boate e tudo…
Eu não sabia o que dizer. Sinceramente, eu estava perdido.
― Tudo bem, Charlie… vou facilitar para você. Quando aconteceu tudo aquilo com o Craig, o que você pensou? ― Ela realmente queria saber.
― Bom, pensei um monte de coisas ― eu disse. ― Mas, principalmente, eu pensei que a sua tristeza era muito mais importante para mim do que Craig não ser mais seu namorado. E que se isso significava que eu nunca mais ia pensar em você daquele jeito, desde que você fosse feliz, por mim estava tudo bem. Foi quando eu percebi que realmente amava você.
Ela se sentou no chão ao meu lado. Falou baixinho:
― Charlie, você não percebe? Não posso sentir isso. É doce e tudo, mas é como se você não estivesse presente às vezes. É ótimo que você ouça e seja um ombro amigo para alguém, mas há momentos em que a gente não precisa de um ombro. E se precisarmos de um braço, ou coisa parecida? Você não pode se limitar a se sentar lá, colocar a vida de todos à frente da sua e pensar que o que importa é o amor. Não pode fazer isso. Você tem que fazer coisas.
― Como o quê? ― perguntei.
Minha boca estava seca.
― Não sei. Como pegar as mãos de alguém quando toca uma música lenta. Ou convidar alguém para sair. Ou dizer às pessoas o que você precisa. Ou o que você quer. Como na pista de dança. Você não queria me beijar?
― Queria ― eu disse.
― Então, por que não beijou? ― ela perguntou a sério.
― Porque eu achei que você não me queria.
― Por que você pensou isso?
― Por causa do que você disse.
― Do que eu disse nove meses atrás? Quando eu disse a você para não pensar em mim daquele jeito?
Assenti.
― Charlie, eu também disse para não dizer à Mary Elizabeth que ela era bonita. E para fazer a ela um monte de perguntas e não interrompê-la. Agora ela está com um cara que faz exatamente o contrário. E está dando certo, porque Peter é assim. Ele está sendo ele mesmo. E ele faz as coisas.
― Mas eu não gosto de Mary Elizabeth.
― Charlie, a questão não é essa. A questão é que eu não acho que você teria agido diferente mesmo que gostasse de Mary Elizabeth. É como no dia em que você ajudou Patrick e derrubou dois caras que o estavam agredindo, mas e quando Patrick estavaagredindo a si mesmo? Como quando vocês iam ao parque? Ou quando ele beijava você? Você queria que ele o beijasse?
Sacudi a cabeça em negativa.
― Então, por que você deixou?
― Eu estava tentando ser amigo dele.
― Mas você não estava sendo amigo, Charlie. Às vezes, você não é amigo de jeito nenhum. Porque você não foi sincero com ele.
Fiquei sentado em silêncio. Olhei para o chão. Não disse nada. Foi muito desagradável.
― Charlie, eu lhe disse para não pensar em mim daquele jeito há nove meses por causa do que eu estou dizendo agora. Não por causa de Craig. Não porque eu não acho você ótimo. É só que eu não quero ser a paixonite de ninguém. Se alguém gosta de mim, eu quero que goste de mim de verdade, e não pelo que pensam que eu sou. E não quero que carreguem isso preso por dentro. Quero que mostrem para mim, para que eu possa sentir também. E se fazem alguma coisa de que eu não gosto, eu digo.
Ela estava começando a chorar. Mas não estava triste.
― Você sabe que eu culpei Craig por não me deixar fazer as coisas? Sabe como eu me sinto idiota agora? Talvez ele não tenha me estimulado realmente a fazer as coisas, mas não evitou que eu fizesse também. Depois de algum tempo, eu não fazia as coisas porque não queria que ele pensasse em mim de uma forma diferente. Mas o caso é que eu não estava sendo sincera. Então, por que eu me preocuparia se ele me amava ou não se não me conhecia de verdade?
Olhei para ela. Ela havia parado de chorar.
― Então, amanhã, eu vou embora. E não vou deixar que isso aconteça novamente com ninguém. Vou fazer o que eu quiser fazer. Eu serei quem eu realmente sou. E vou descobrir o que é isso. Mas agora eu estou aqui com você. E quero saber quem você é, o que você precisa e o que você quer fazer.
Ela esperou pacientemente por minha resposta. Mas, depois de tudo o que ela disse, eu imaginei que devia fazer o que queria, em vez de pensar. Não pensar nisso. Não dizer em voz alta… E se ela não gostar, pode falar. E nós voltaríamos às malas.
Então, eu a beijei. E ela correspondeu. E nós nos deitamos no chão e continuamos a nos beijar. E foi tão doce. E fizemos ruídos baixinhos. E ficamos em silêncio. E continuamos. Fomos para a cama e deitamos sobre todas as coisas que ainda não tinham ido para as malas. E nos tocamos na cintura por cima das roupas. E depois por baixo das roupas. E depois sem as roupas. E foi tão bonito. Ela estava tão bonita. Ela pegou minha mão e a deslizou por sob a calça. E eu a toquei. E mal conseguia acreditar nisso. Foi quando tudo passou a fazer sentido. Até que ela moveu a mão para a minha calça, e me tocou.
Aí eu parei.
― O que foi? ― perguntou ela. ― Isso machuca?
Sacudi a cabeça. Eu me sentia muito bem. Não sei o que havia de errado.
― Desculpe. Eu não queria…
― Não. Não se desculpe ― eu disse.
― Mas estou me sentindo mal com isso.
― Por favor, não fique assim. Foi muito legal.
Eu estava começando a ficar bem perturbado.
― Você não está pronto ainda? ― perguntou ela.
Assenti. Mas não era isso. Não sei o que era.
― Tudo bem que você não esteja pronto ― disse ela.
Ela estava sendo muito legal comigo, mas eu me sentia muito mal.
― Charlie, você quer ir para casa? ― Sam perguntou.
Acho que concordei, porque ela me ajudou a me vestir.
E depois ela colocou uma camiseta. E eu queria bater em mim mesmo por ser tão criança. Porque eu amava a Sam. E estávamos juntos. E eu estava estragando tudo. Tudo. Que coisa terrível. Eu me sentia péssimo.
Ela me levou para fora.
― Precisa de carona? ― perguntou.
Eu estava com o carro do meu pai. Não estava bêbado. Ela parecia bem preocupada.
― Não, obrigado.
― Charlie, não vou deixar você dirigir desse jeito.
― Desculpe. Eu vou a pé.
― São duas horas da manhã. Eu levo você para casa.
Ela foi a outro quarto para pegar as chaves do carro. Eu fiquei no hall. Eu queria morrer.
― Você está branco como um papel, Charlie. Quer um pouco de água?
― Não. Não sei.
Comecei a chorar como um louco.
― Aqui. Deite-se no sofá ― ela aconselhou.
Ela me deitou no sofá. Trouxe uma toalha de rosto umedecida e colocou na minha testa.
― Você pode dormir aqui esta noite. Tá bom?
― Tá.
― Agora fique calmo. Respire fundo.
Eu fiz o que ela me pediu. E antes que eu dormisse, eu disse uma coisa:
― Não vou poder fazer mais isso. Desculpe.
― Tudo bem, Charlie. Agora durma ― disse Sam.
Mas eu não estava falando mais com Sam. Estava falando com outra pessoa.
Quando eu dormi, tive um sonho. Meu irmão, minha irmã e eu estávamos assistindo à televisão com a tia Helen, Tudo estava em câmera lenta. O som era abafado. E ela estava fazendo o mesmo que Sam fez comigo. Foi quando eu acordei. E não sei o que diabos estava acontecendo.
Sam e Patrick estavam de pé na minha frente. Patrick perguntava se eu queria o café da manhã. Acho que disse sim. Fomos comer. Sam ainda parecia preocupada. Patrick parecia normal. Comemos bacon com ovos com os pais dele e todos falavam pouco. Não sei por que estou falando com você de bacon e ovos. Não é importante. Nem um pouco.
Mary Elizabeth e todos os outros chegaram e, enquanto a mãe de Sam estava ocupada verificando tudo, fomos para a entrada de carros. Os pais de Sam e Patrick entraram na van. Patrick foi para o banco do motorista da picape de Sam, dizendo a todos que os veriam em alguns dias. Depois Sam abraçou e deu adeus a todos. Uma vez que ela voltaria por alguns dias no final do verão, era mais um “até logo” do que um adeus.
Eu fui o último. Sam veio a mim e me abraçou por um longo tempo. Por fim, ela sussurrou no meu ouvido. Disse um monte de coisas maravilhosas sobre como tudo estava bem, que eu não estava pronto na noite passada e como sentiria a minha falta e como queria que eu me cuidasse enquanto ela estivesse fora.
― Você é minha melhor amiga.
Foi o que eu consegui responder.
Ela sorriu, me deu um beijo na testa e foi como se por um momento a parte ruim da noite passada tivesse desaparecido. Mas eu ainda achava que era um adeus e não um “até logo”. O caso é que eu não chorei. Não sei o que estava sentindo.
Finalmente, Sam entrou em sua picape e Patrick deu a partida. Estava tocando uma música legal. E todos sorriram. Inclusive eu. Mas eu não estava mais lá.
Só quando não pude mais ver os carros foi que eu voltei e as coisas começaram a ficar ruins novamente. Mas, desta vez, elas pareciam muito piores. Mary Elizabeth e todos estavam chorando agora, e me perguntaram se eu queria ir ao Big Boy ou coisa assim. Disse a eles que não. Obrigado. Eu vou para casa.
― Você está bem, Charlie? ― perguntou Mary Elizabeth.
Acho que eu começava a parecer mal de novo, porque ela parecia preocupada.
― Está tudo bem. Eu só estou cansado ― menti.
Fui para o carro do meu pai e parti. Podia ouvir todas aquelas músicas pelo rádio, mas o rádio estava desligado. Quando cheguei à garagem, acho que esqueci o carro ligado. Apenas fui para o sofá da sala de tevê. E pude ver os programas de tevê, mas a televisão não estava ligada.
Não sei o que há de errado comigo. É como se tudo o que pudesse fazer é escrever esse palavreado para evitar a depressão. Sam foi embora. E Patrick não estará em casa por alguns dias. E eu não posso conversar com Mary Elizabeth nem ninguém, nem meu irmão nem ninguém da minha família. Exceto, talvez, a tia Helen. Mas ela se foi. E mesmo que estivesse aqui, não sei se poderia conversar com ela também. Porque estou começando a achar que o sonho que tive na noite passada era real. E que as perguntas do meu psiquiatra não eram assim tão estranhas.
Não sei o que devo fazer agora. Conheço outras pessoas que ficaram bem piores. Sei disso, mas de qualquer forma é perturbador e não consigo parar de pensar que aquele garotinho comendo batatas fritas com a mãe no shopping vai crescer e bater na minha irmã. Só penso nisso. Sei que estou pensando rápido demais agora, e tudo na minha cabeça está meio hipnótico, mas é isso e não está passando. Eu continuo vendo ele, e ele continua batendo na minha irmã, e ele não quer parar, e eu quero que ele pare porque ele não quer fazer isso, mas ele não me ouve e não sei o que fazer.
Desculpe, mas tenho de parar de escrever agora.
Mas antes quero agradecer a você por estar sendo uma daquelas pessoas que ouvem e entendem, e não tentam dormir com as pessoas, apesar de poderem fazer isso. Eu agradeço mesmo, e desculpe se eu o envolvi nisso tudo quando você ainda não sabia quem eu era, e nunca nos conhecemos pessoalmente, e não posso contar a você quem eu sou porque prometi guardar segredo de tudo.
Só não quero que você pense que eu peguei seu nome na lista telefônica. Eu me mataria se você pensasse isso. Então, por favor, acredite em mim quando eu digo que me senti muito mal depois da morte de Michael, e vi uma garota na aula, que não me viu, e ela contou tudo de você aos amigos dela. E embora eu não conheça você, acho que conheço, porque me parece uma boa pessoa. O tipo de pessoa que não se importaria de receber cartas de um garoto. O tipo de pessoa que entenderia como as cartas são melhores que um diário, porque existe uma comunhão que um diário não tem. Só quero que você não se preocupe comigo, ou pense que vai me encontrar, ou perca mais o seu tempo. Eu lamento muito que tenha perdido seu tempo comigo, porque você significa muito para mim, e eu espero que você tenha uma vida muito legal, porque acho que merece. De verdade. Espero que você pense o mesmo. Tudo bem, então. Adeus.
Com amor,
Charlie.

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